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A
João Luiz Ferreira,
Engenheiro Civil

Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la routine vulgaire.

Renan, Marc-Auréle

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I

​​​​A lição de violão

Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo às vezes e, sempre, o pão da padaria francesa.
 

Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim, tomava o bonde e, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim, um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
 

A vizinhança já lhe conhecia os hábitos, tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada:
 

— Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou.
 

E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros rendimentos além do seu or­de­nado, o Major Quaresma podia levar um tipo de vida superior aos seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
 

Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos, que o julgavam esqui­sito e misan­tropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha ini­migos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
 

O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua biblioteca, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
 

Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco, e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha — as únicas pessoas que o visitavam então—, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana, e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez, o caso intrigou a vizinhança. Um vio­lão em casa tão respeitável! Que seria?
 

E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça quando passavam diante da janela aberta do esquisito subsecretário.
 

Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito empunhando o “pinho” na posição de tocar, o major atentamente ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ré, aprendeu?”
 

Mais não foi preciso pôr na carta: a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. “Mas que coisa! Um homem tão sério metido nessas malandragens!”
 

Uma tarde de sol — sol de março, forte e implacável —, aí pe­las cercanias das quatro horas, as janelas de uma erma rua de São Januário povoaram-se, rápida e repentinamente, de um e de ou­tro lado. Até da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disso: o Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de carro de boi, su­bia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.
 

É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição.
 

Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pincenê; olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma coisa, seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte bri­lho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da coisa que fixava.
 

Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque — preto, azul, cinza ou de pano listrado, mas sempre de fraque — e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um fi­gu­rino antigo de que ele sabia com precisão a época.
 

Quando entrou em casa naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta perguntando:
 

— Janta já?
 

— Ainda não. Espere um pouco o Ricardo, que vem jantar hoje conosco.
 

— Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável como você, andar metido com esse seres­teiro, um quase capadócio? Não é bonito!
 

O major descansou o chapéu-de-sol — um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola — e respondeu:
 

— Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas, que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês, muito o elogia.
 

— Mas isso foi em outro tempo; agora...
 

— Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionais...
 

— Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.
 

O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direção ao interior da casa. Quaresma des­piu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando.
 

Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua la­teral, e todo ele era formado de estantes de ferro. Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas, com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião.
 

Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: Bento Teixeira, da Prosopopeia; Gregório de Matos, Basílio da Gama, Santa Rita Durão, José de Alencar (todo), Macedo, Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais, ou nacionalizados, de oitenta pra lá, faltava nas estantes do major.
 

De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armi­tage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então, no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, Jean de Léry, Saint-­Hilaire, Martius, o Príncipe de Neuwied, John Mawe, von Eschwege, Agassiz, Couto de Magalhães, e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, era porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.
 

Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, ma­nuais, enciclopédias, compêndios, em vários idiomas.
 

Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediável igno­rância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem e sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idio­mas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo intei­ro. Não fora o amor comum, tagarela e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou admi­nistrativas; o que Quaresma pensou — ou melhor, o que o patrio­tismo o fez pensar — foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois, então, apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
 

Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves — era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.
 

Logo aos dezoito anos, quis fazer-se militar, mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador, e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nas­cer”. Impossibili­tado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a admi­nistração e, dos seus ramos, escolheu o militar.
 

Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de ve­teranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia; aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o há­lito da Pátria.
 

Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nas­centes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proe­minência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso, ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo, e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.
 

Havia um ano, a essa parte, que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs, antes que a “Aurora, com seus dedos rosados, abrisse caminho ao louro Febo”, ele se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní, ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia desse estudo do idio­ma tupiniquim, deram, não se sabe por que, em chamá-lo “Ubirajara”. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assinar o ponto distraído, sem reparar quem lhe estava às costas, disse em tom chocarreiro:
 

— Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?
 

Quaresma era considerado no Arsenal; a sua idade, a sua ilustração, a modéstia e honestidade de seu viver impu­nham-no ao respeito de todos. Sentindo que a alcunha lhe era dirigida, não perdeu a dignidade, não prorrompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concentrou o pincenê, levantou o dedo indicador no ar e respondeu:
 

— Senhor Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ri­dícu­lo aqueles que trabalham em silêncio para a grandeza e a emancipação da Pátria.
 

Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os empregados deixavam as bancas, trans­mitir aos companheiros o fruto de seus estudos, as descobertas que fazia no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionais. Um dia era o petróleo, que lera em qualquer parte como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de árvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Mato Grosso; outra, era um sábio, uma notabi­lidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha desco­berta a trazer, entrava pela corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegável, os melhoramentos insigni­ficantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indiferentes. Pequenas talvez...
 

Os colegas ouviam-no respeitosos, e ninguém, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objeção, a avançar uma pilhéria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças:
 

— Esse Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa.
 

E, desse modo, ele ia levando a vida; metade na repartição, sem ser compreendido, e a outra metade em casa, também sem ser compreendido. No dia em que o chamaram de Ubirajara, Qua­resma ficou reservado, taciturno, mudo, e só veio a falar porque, quando lavavam as mãos num aposento próximo à secretaria e se preparavam para sair, alguém suspirando, disse:
 

— Ah! Meu Deus! Quando poderei ir à Europa!
 

O major não se conteve. Levantou o olhar, concertou o pincenê, e falou fraternal e persuasivo:
 

— Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visi­tar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!
 

O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com estatísticas e, até, provou exuberan­temen­te que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...
 

Era assim o Major Policarpo Quaresma, que acabava de chegar à sua residência às quatro e quinze da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, exceto aos domingos, exatamente ao jeito da aparição de um astro ou de um eclipse.
 

No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de fortuna, porque Quaresma não as tinha no mínimo grau.
 

Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bi­blioteca, o major abriu um livro e pôs-se a lê-lo à espera do conviva. Era o velho Rocha Pita, o entusiástico Rocha Pita da História da América Portuguesa. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madrugada mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios mais dourados...” mas não pôde ir ao fim. Batiam à porta. Foi abri-la em pessoa.
 

— Tardei, major? — perguntou o visitante.
 

— Não. Chegaste à hora.
 

Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros, homem célebre pela sua habili­dade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno subúrbio da cidade, em cujos saraus ele e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a extensão dos subúrbios, crescendo, solidificando-se, até ser consi­derado como coisa própria a eles. Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer, um capadócio. Não, Ricardo Coração dos Outros era um artista a frequentar e a honrar as melhores famílias do Méier, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do Tenente Marques, do Doutor Bulhões ou do Seu Castro, a sua presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Doutor Bu­lhões, até, tinha pelo Ricardo uma admiração especial, um delírio, um frenesi, e, quando o trovador cantava, ficava em êxtase.
 

— Gosto muito de canto — dizia o doutor no trem certa vez — mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo.
 

Esse doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios, não como médico, pois que nem óleo de rícino receitava, mas como en­tendido em legislação telegráfica, por ser chefe de seção da Se­cre­taria dos Telégrafos.
 

Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial, e que só é alta nos subúrbios. Compõe-se, em geral, de funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de diferentes milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. Isso é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde, se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: “aparece lá em casa, que te dou um prato de comida”. Porque o orgulho da aris­tocracia suburbana está em ter, todo o dia, jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado; aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distinção. Fora dos subúrbios, na Rua do Ouvidor, nos teatros, nas gran­des festas centrais, essa gente míngua, apaga-se, desaparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que deslumbram, quase diariamente, os lindos cavalhei­ros dos intermináveis bailes diários daquelas redondezas.
 

Ricardo, depois de ser o poeta e o cantor dessa curiosa aris­tocracia, extravasou e passou à cidade propriamente. Sua fama já chegava a São Cristóvão e, em breve (ele o esperava), Botafogo convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e de sua poética...
 

Mas que vinha ele fazer ali, na casa de pessoas de propósi­tos tão altos e tão severos hábitos? Não é difícil atinar. Decerto, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poética, de mineralogia e histórias brasileiras.
 

Como bem supôs a vizinhança, Coração dos Outros vinha ali tão somente ensinar o major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais simples.
 

De acordo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poético-musical ca­racterística da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e filósofos, e adquiriu certeza de que era a modinha acompa­nhada pelo violão. Seguro dessa verdade, não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genui­namente brasileiro e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade, e tomou lições com ele. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo original de arte.
 

Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas antes disso, por convite especial do discípulo, ia compartilhar o seu jantar; e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do subse­cretário.
 

— Já sabe dar o ré sustenido, major? — perguntou Ricardo logo ao sentar-se.
 

— Já.
 

— Vamos ver.
 

Dizendo isso, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve tempo. Dona Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!
 

— O Senhor Ricardo há de nos desculpar — disse a ve­lha se­nhora — a pobreza do nosso jantar. Eu lhe quis fazer um frango com petit-pois, mas Policarpo não deixou. Disse-me que esse tal petit-pois é estrangeiro, e que eu o substituísse por guandu. Onde é que se viu frango com guandu?
 

Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade, e não fazia mal experimentar.
 

— É uma mania de seu amigo, Senhor Ricardo, essa de só que­rer coisas nacionais, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!
 

— Qual, Adelaide, você tem certas ojerizas! A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente. Você é que deu para implicar.
 

— Exemplo: a manteiga, que fica logo rançosa.
 

— É porque é de leite; se fosse como essas estrangeiras aí, fa­bricadas com gorduras de esgoto, talvez não se estragasse... É isso, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...
 

— Em geral é assim — disse Ricardo.
 

— Mas é um erro... Não protegem as indústrias nacio­nais... Comigo não há disso; de tudo que há nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com pano nacional, calço botas nacionais, e assim por diante.
 

Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dois cálices de parati.
 

— É do programa nacional — fez a irmã, sorrindo.
 

— Decerto, e é um magnífico aperitivo. Esses vermutes por aí, drogas! Isto é álcool puro, bom, de cana; não é de batatas ou milho...
 

Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito, levou-o aos lábios, e foi como se todo ele bebesse o licor nacional.
 

— Está bom, hein? — indagou o major.
 

— Magnífico — fez Ricardo, estalando os lábios.
 

— É de Angra. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores...
 

E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas objeções, e Ricardo dizia: “é, é, não há dúvida”, rolando nas órbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
 

Acabado o jantar, foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor... Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o major era, em jardinagem, essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias — flores exóticas —; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como aquelas que ele tinha ali.
 

Ricardo ainda uma vez concordou, e os dois entraram na sala quando o crepúsculo vinha devagar, muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do Sol ao deixar a Terra, pondo nas coisas a sua poesia dolente e a sua deliquescência.
 

Mal foi aceso o gás, o mestre de violão empunhou o ins­tru­mento, apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Tirou alguns acordes para experimentar, e dirigiu-se ao discípulo, que já tinha o seu em posição.
 

— Vamos ver. Tire a escala, major.
 

Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação.
 

— Olhe, major, é assim.
 

E mostrou a posição do instrumento, indo do colo ao braço esquerdo estendido, seguro levemente pelo direito, e, em seguida, acrescentou:
 

— Major, o violão é o instrumento da paixão. Precisa de peito para falar... É preciso encostá-lo, mas encostá-lo com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que senti­mos... — Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo ele fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.
 

A lição durou uns cinquenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisonjeado, quis a vaidade profissional que ele, a princípio, se negasse.
 

— Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
 

Dona Adelaide obtemperou então:
 

— Cante uma de outro.
 

— Oh! Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac (conhecem?), quis fazer-me uma modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em escrever uns versos certos que digam coisas bonitas; o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo, se eu dissesse, como em começo quis na “O Pé”, uma modinha minha: “o teu pé é uma folha de trevo”, não ia com o violão. Querem ver?
 

E ensaiou em voz baixa, acompanhado pelo instrumento: “o–teu–pé–é–uma–fo–lha–de–tre–vo”.
 

— Vejam — continuou ele — como não dá. Agora reparem: “o–teu–pé–é–uma–uma–ro–sa–de–mir–ra”. É outra coisa, não acham?
 

— Não há dúvida — disse a irmã de Quaresma.
 

— Cante essa — convidou o major.
 

— Não — objetou Ricardo. — Está velha; vou cantar a “Promessa”, conhecem?
 

— Não — disseram os dois irmãos.
 

— Oh! Anda por aí como as “Pombas”, do Raimundo.
 

— Cante lá, Senhor Ricardo — pediu Dona Adelaide.
 

Ricardo Coração dos Outros, por fim, afinou ainda uma vez o violão, e começou em voz fraca:
 

Prometo pelo Santíssimo Sacramento
Que serei tua paixão...

— Vão vendo — disse ele num intervalo — quanta imagem, quanta imagem!

 

E continuou. As janelas estavam abertas. Moças e rapa­zes começaram a se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sen­tindo que a rua se interessava, Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar feroz, que ele supunha ser de ternura e entusiasmo; e, quando acabou, as palmas soaram do lado de fora, e uma moça entrou procurando Dona Adelaide.
 

— Senta-te, Ismênia — disse ela.
 

— A demora é pouca.
 

Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma perguntou à moça:
 

— Então, quando te casas?
 

Era a pergunta que se lhe faziam sempre. Ela, então, curvava para o lado direito a sua triste cabecinha, coroada de magníficos cabelos castanhos com tons de ouro, e respondia:
 

— Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do ano e, então, marcaremos.
 

Isso era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
 

Não era feia a menina, a filha do general, vizinho de Quaresma. Era até bem simpática, com a sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
 

Aquele seu noivado durava há anos; o noivo, o tal Cavalcan­ti, estudava para dentista; um curso de dois anos, mas que ele arras­tava há quatro; e Ismênia tinha sempre que responder à famosa pergunta: “Então, quando se casa?” “Não sei... Cavalcanti forma-se para o ano e...”
 

Intimamente, ela não se incomodava. Na vida, para ela, só havia uma coisa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nela a pedia. Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo.
 

Após responder a Dona Adelaide, explicou o motivo da visita. Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela.
 

— Papai — disse Dona Ismênia — gosta muito de modi­nhas... É do Norte; a senhora sabe, Dona Adelaide, que a gente do Norte aprecia muito. Venham.
 

E para lá foram.

​​

CAPÍTULO II

​​​​Reformas radicais

Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. Na sua meiga e sossegada casa de São Cristóvão, enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu temperamento. De manhã, depois da toilette e do café, sentava-se no divã da sala principal e lia os jornais. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a sugestão de uma ideia útil à sua cara pátria. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo às nove e meia da manhã.
 

Acabado o almoço, dava umas voltas pela chácara em que predo­minavam as fruteiras nacionais, recebendo a pitanga e o cam­buci os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela po­mo­logia, como se fossem bem cerejas ou figos.
 

O passeio era demorado e filosófico. Conversando com o pre­to Anastácio, que lhe servia há trinta anos, sobre coisas antigas — o casamento das princesas, a quebra do Souto, e outras — o major continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. Após uma hora ou menos, voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico, no Fernão Cardim, nas cartas de Nóbrega, nos anais da Biblioteca, no von den Stein, e tomava notas sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os índios. Não fica bem dizer “estudava”, porque já o fizera há tempos, não só no tocante à língua, que já quase falava, como também nos simples aspectos etnográ­ficos e antropológicos. Recordava (é melhor dizer assim), afirmava certas noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais.
 

Para bem compreender o motivo disso, é preciso não esquecer que o major, depois de trinta anos de meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo, e o seu grande amor à pátria, eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de obrar e de concretizar suas ideias. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra.
 

Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo — o que precisava mais? Tempo, e um pouco de originalidade. Portanto, dúvidas não flutuavam mais no seu espírito; mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças, não se tinham elas dissipado, antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”, numa festa que o general dera em casa.
 

Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na família um gosto pelas festanças, cantigas e hábitos genuinamente nacionais, como se diz por aí. Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar à maneira popular dos velhos tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância; Dona Maricota, sua mulher, até, ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus fi­lhos, cinco moças e um rapaz, viram na coisa um pretexto de festas e, portanto, aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. A modi­nha era pouco; os seus espíritos pediam coisa mais plebeia, mais característica e extravagante.
 

Quaresma ficou encantado quando Albernaz falou em organi­zar uma chegança à moda do Norte, por ocasião do aniversário de sua praça. Em casa do general era assim; qualquer aniversário tinha a sua festa, de forma que havia bem umas trinta por ano, não contando domingos, feriados e dias santificados, em que se dançava também.
 

O major pensara até ali pouco nessas coisas de festas e danças tradicionais, entretanto viu logo a significação altamente patrió­tica do intento. Aprovou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de dar os versos e a música? Alguém lembrou da tia Maria Rita, uma preta velha, que morava em Benfica, antiga lavadeira da família Albernaz. Lá foram os dois, o General Albernaz e o Major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e cristalina tarde de abril.
 

O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme, que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante de ordens, assistente, encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo Mi­li­tar quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção, e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele, a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos.
 

O altissonante título de general, que lembrava coisas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar. Contudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de guerra, uma anedota militar. “Foi em Lomas Valentinas”, dizia ele... Se alguém perguntava: “O general assistiu a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas soube pelo Camisão, pelo Venâncio, que a coisa esteve preta.”
 

O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo término de um picadão que ia para Minas, se esgalhava para São Paulo, e abria comunica­ções com o Curato de Santa Cruz. Por aí, em costas de bestas, vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas, e também, ultimamen­te, os chamados gêne­ros do país. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI, pesadas como naus, a ba­lan­çarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para irem ter ao longínquo Santa Cruz. Não se pode crer que a coisa fosse lá muito imponente; a Corte andava em apuros de di­nheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados em pangarés desanimados, o prestígio devia ter a sua grandeza; não por ele mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável majestade.
 

Entre nós, tudo é inconsciente, provisório, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janelas quase quadradas e vidraças de pequenos vidros, eram de há bem poucos anos, menos de cinquenta.
 

Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminis­cências, e foram até ao ponto. Antes, perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animais de corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavalo, panóplias de chicotes e outros emblemas hípicos nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda parte onde tais distintivos fiquem bem e deem na vista.
 

A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da es­tação da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro negro de moinha de carvão de pedra, medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam e, mais adiante, um depósito de locomotivas; sobre os trilhos, algumas manobravam e outras arfavam sob pressão.
 

Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa de Maria Rita. O tempo estivera seco e, por isso, se podia andar por ele. Para além do caminho, estendia-se a vasta região de mangues; uma zona imensa, triste e feia, que vai até ao fundo da baía e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas azuis de Petrópolis.
 

Chegaram à casa da velha. Era baixa, caiada, e coberta com as pesadas telhas portuguesas. Ficava um pouco afastada da estrada. À direita, havia um monturo: restos de cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira — um sambaqui a fazer-se para gáudio de arqueólogo de futuro remoto —; à esquerda, crescia um mamoeiro e, bem junto à cerca, no mesmo lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta.
 

— Que desejam?
 

Disseram o que queriam e aproximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:
 

— Vovó, estão aí dois moços que querem falar com a senhora.
 

— Entrem, façam o favor — disse ela depois, dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.
 

A sala era pequena e de telha-vã. Pelas paredes, velhos cromos de folhinhas, registros de santos, recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima, até dois terços da altura. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha havia um retrato de Vítor Emanuel, com enormes bigodes em desordem; num cromo sentimental de folhinha, uma cabeça de mulher em posição de sonho parecia olhar um São João Batista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma lamparina numa cantoneira enchia de fuligem a Conceição de louça.
 

Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descarnado, enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. Capengava de um pé, e parecia querer ajudar a marcha com a mão esquerda pousada na perna corres­pondente.
 

— Boas-tardes, tia Maria Rita — disse o general.
 

Ela respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O general atalhou:
 

— Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
 

— Ah! É sô coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota?
 

— Vai bem. Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.
 

— Quem sou eu, ioiô!
 

— Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o “Bumba-meu-boi”?
 

— Quá, ioiô, já mi esqueceu.
 

— E o “Boi Espácio”?
 

— Coisa veia, do tempo do cativeiro; pra que sô coroné qué sabê disso?
 

Ela falava arrastando as sílabas, com um doce sorriso e um o­lhar vago.
 

— É para uma festa... Qual é a que você sabe?
 

A neta, que até ali ouvia calada a conversa, animou-se a dizer alguma coisa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:
 

— Vovó já não se lembra.
 

O general, que a velha chamava coronel por tê-lo conhecido neste posto, não atendeu a observação da moça, e insistiu:
 

— Qual esquecida, o quê! Deve saber ainda alguma coisa, não é, titia?
 

— Só sei o “Bicho Tutu” — disse a velha.
 

— Cante lá!
 

— Ioiô sabe! Não sabe? Quá, sabe!
 

— Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se sei.
 

Quaresma fez sinal afirmativo com a cabeça e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e entoou:

É vem tutu
Por detrás do murundu
Pra cumê sinhozinho
Cum bucado de angu.


— Ora! ­— fez o general com enfado — isso é coisa antiga de embalar crianças. Você não sabe outra?

 

— Não, sinhô. Já mi esqueceu.
 

Os dois saíram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folga­res e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma demons­tração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...
 

Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar, e escapava-lhe. Era quase a esperan­ça de casamento de uma das quatro filhas que se ia; das quatro, porque uma delas já estava garantida, graças a Deus!
 

O crepúsculo chegava, e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.
 

A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismênia, informou que nas imediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a ele. Era um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos, homem doce e ingênuo, que se deixara esquecer em vida como poeta, e agora se entretinha em publicar coleções que ninguém lia, de contos, canções, adágios e ditados populares.
 

Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz também, porque via na sua festa, com um número de folclore, meio de chamar a atenção sobre sua casa, atrair gente e... casar as filhas.
 

A sala em que foram recebidos era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia mover nela. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos; numa pasta: São Bonifácio do Cabresto.
 

— Os senhores não sabem — disse o velho poeta — que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas ela reserva!... Ainda há dias, recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. Querem ver?
 

O colecionador revolveu pastas e, afinal, trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobre,
Não me deixaria assim;
Dava no coração dela
Um lugarzinho pra mim.
O amor que tenho por ela
Já não cabe no meu peito;
Sai-me pelos olhos afora,
Voa às nuvens direito.


— Não é bonito?... Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco, a coleção de histórias que o povo tem sobre o símio?... Oh! Uma verdadeira epopeia cômica!

 

Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, num momento contagiado pela paixão do folclorista, tinha mais inteligência no olhar com que o encarava.
 

O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo numa pasta e foi logo à outra, donde tirou várias folhas de papel. Veio até junto aos dois visitantes e disse-lhes:
 

— Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco, das muitas que o povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta, e pretendo publicá-las sob o título Histórias do Mestre Simão.
 

E, sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:
 

— O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de ma­­cacos em troça, pulando de árvore em árvore, nas bordas de uma grota. Eis senão quando um deles vê, no fundo, uma onça que lá caíra. Os macacos se enternecem e resolvem sal­vá-la. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem, amarra­ram a corda assim feita à cintura de cada um deles, e atiraram uma das pontas à onça. Com o esforço reunido de todos, conse­guiram içá-la, e logo se desamarraram, fugindo. Um deles, porém, não pôde fazer a tempo, e a onça segurou-o imediatamente. “Compadre Macaco”, disse ela, “tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer”. O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexível. Simão, então, lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a ele; o macaco, sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os animais o jabuti, cujas audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se ele em cima de uma pedra. Os dois chegaram e o macaco expôs as suas razões. O jabuti ouviu-o e, no fim, ordenou: “Bata palmas”. Apesar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino: “Bata palmas”. A onça não teve remédio senão largar o macaco, que se escapou, e também o juiz, atirando-se na água.
 

Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dois:
 

— Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção, muita criação, verdadeiro material para fabliaux interes­santes... No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa forma imortal!... Ah! Então!
 

Dizendo isso, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação, e nos seus olhos abrolhavam duas lágrimas furtivas.
 

— Agora — continuou ele — depois de passada a emoção, vamos ao que serve. “O Boi Espácio” ou o “Bumba-meu-boi” ainda é muita coisa para vocês... É melhor irmos devagar, começar pelo mais fácil... Está aí o “Tangolomango”, conhecem?
 

— Não — disseram os dois.
 

— É divertido. Arranjem dez crianças, uma máscara de velho, uma roupa estrambólica para um dos senhores, que eu ensaio.
 

O dia chegou. A casa do general estava cheia. Cavalcanti viera, e ele e a noiva, à parte, no vão de uma janela, pareciam ser os úni­cos que não tinham interesse pela folia. Ele, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ela, meio fria, deitando de quando em quando para o noivo um olhar de gratidão.
 

Quaresma fez o “Tangolomango”, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do general, pôs uma imensa máscara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de báculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em coro:

Uma mãe teve dez filhos,
Todos os dez dentro de um pote;
Deu o Tangolomango nele,
Não ficaram senão nove.


Por aí, o major avançava, batia com o báculo no assoalho, fazia “hu! hu! hu!”; as crianças fugiam, afinal ele agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando, com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu. Tiraram-lhe a máscara, deram-lhe algumas sacudidelas, e Quaresma voltou a si.

 

O acidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folclore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo. Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras; o próprio “Tango­lo­mango” o era também. Tornava-se, portanto, preciso arranjar alguma coisa própria, original, uma criação da nossa terra e dos nossos ares.
 

Essa ideia levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma ideia traz outra, logo ampliou o seu propósito; e eis a razão por que estava organizando um código de relações, de cumprimentos, de cerimônias domésticas e festas, calcado nos preceitos tupis.
 

Fazia dez dias que se entregava a essa árdua tarefa quando (era domingo) lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e o compadre e a filha — pois eram eles — ficaram estupefatos no limiar da porta.
 

— Mas que é isso, compadre?
 

— Que é isso, Policarpo?
 

— Mas, meu padrinho...
 

Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:
 

— Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão. Isso não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos; era assim que faziam os tupinambás.
 

O seu compadre Vicente, a filha e Dona Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagância!
 

— Mas, Senhor Policarpo — disse-lhe o compadre — é possível que isso seja muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.
 

— Decerto, padrinho — acrescentou a moça com vivacidade — parece até agouro...
 

Esse seu compadre era italiano de nascimento. A história das suas relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. O major já tinha as suas ideias patrióticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vê-lo suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recém-chegado. Mas um belo dia, ia Quaresma pelo Largo do Paço, muito distraído, a pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preocupação séria. Não só, de onde em onde, soltava exclamações sem ligação alguma com a conversa atual, como também cerrava os lábios, ri­lhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu colega, estando disposto a matá-lo, pois perdera o crédito e, em breve, estaria na miséria. Havia na sua afirmação uma tal energia, e um grande e estranho acento de ferocidade, que fizeram o major empregar toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. E não ficou nisso só: emprestou-lhe também dinheiro. Vicente Coleoni pôs uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veio a ter aquela filha que foi levada à pia pelo seu benfeitor. Inútil dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas ideias patrióticas e o seu ato.
 

É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes, mas já flutuavam na sua cabeça, e reagiam sobre a sua consciência como tênues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos, veleidades que não tardariam tomar consistência, e só esperavam os anos para desabrochar em atos. Fora, pois, ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo cerimonial goitacás e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tê-lo. Estava até à mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
 

— Lê-se muito, padrinho? — perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre ele os seus olhos muito luminosos.
 

Havia entre os dois uma grande afeição. Quaresma era um tanto reservado, e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera, nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua afeição, tanto mais que sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma ideia, um voo, enfim, para as altas regiões do espírito, que ela não estava habi­tuada a ver em ninguém do mundo que frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação; recebera a comum às moças de seu nas­cimento. Vinha de um pendor próprio, talvez das proximidades europeias do seu nascimento, que a fizeram um pouco diferente das nossas moças.
 

Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho:
 

— Então, padrinho, lê-se muito?
 

— Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.
 

Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa, e os dois conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma coisa de mais. Falava agora com tanta segurança, ele que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar — que diabo! Não, não era possível... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos; uma alegria de matemático que resolveu um problema, de inventor feliz!
 

— Não se vá meter em alguma conspiração — disse a moça gracejando.
 

— Não te assustes por isso. A coisa vai naturalmente, não é preciso violências...
 

Nisso Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja, e o seu violão encapotado em camurça. O major fez as apresentações.
 

— Já o conhecia de nome, Senhor Ricardo — disse Olga.
 

Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contenta­mento. A sua fisionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito, e a sua cútis, que era ressecada e de tom de velho mármore, como que ficou macia e jovem. Aquela moça parecia rica, era fina e bonita, e conhecia-o — que satisfação! Ele, que era sempre um tanto parvo e atrapalhado quando se encontrava dian­te das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a língua, amaciava a voz, e ficava numeroso e eloquente.
 

— Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
 

— Não tive esse prazer, mas li, há meses, uma apreciação sobre um trabalho seu.
 

— “No Tempo”, não foi?
 

— Foi.
 

— Muito injusta! — acrescentou Ricardo. — Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. Vossa Excelência sabe que os versos para música têm alguma coisa de diferente dos comuns, não é? Não há, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra métrica e outro sistema, não acha?
 

— Decerto — disse a moça. — Mas parece-me que o senhor faz versos para a música e não música para os versos.
 

E ela sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, enquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo.
 

Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
 

— O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.
 

— Eu sei, padrinho. Eu sei...
 

— Entre nós, minha senhora — falou Coração dos Outros — não se levam a sério essas tentativas nacionais, mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquele poeta que escreveu em francês popular?
 

— Mistral — acudiu Quaresma — mas não é francês popular; é o provençal, uma verdadeira língua.
 

— Sim, é isso — confirmou Ricardo. — Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.
 

Olhou triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele disse:
 

— Continue na tentativa, Senhor Ricardo, que é digno de louvor.
 

— Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um belo instrumento, e tem grandes dificuldades. Por exemplo...
 

— Qual! — interrompeu Quaresma abruptamente. — Há ou­tros mais difíceis.
 

— O piano? — perguntou Ricardo.
 

— Que piano! O maracá, a inúbia.
 

— Não conheço.
 

— Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais pos­síveis, os únicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nos­sos antepassados, daquela gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!
 

— Instrumento de caboclo, ora! — disse Ricardo.
 

— De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão também não vale nada; é um instrumento de capadócio.
 

— De capadócio, major! Não diga isso...
 

E os dois ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpresa, espantada, sem atinar, sem explicação para aquela ino­pinada transformação de gênio do seu padrinho, até ali tão sossegado e tão calmo.

CAPÍTULO III

​​​​A notícia do Genelício

— Então quando se casa, Dona Ismênia?
 

— Em Março. Cavalcanti já está formado e...
 

Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para daí a três meses. A alegria foi grande na família, e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem baile, uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática.
 

As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ela lhes ia deixar o ca­minho desembaraçado, e fora a irmã quem, até ali, tinha impedido que se casassem.
 

Noiva havia quase cinco anos, Ismênia já se sentia meio casada. Esse sentimento, junto à sua natureza pobre, fê-la não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”... ou senão: “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar”...
 

A todo instante e a toda a hora, lá vinha aquele “porque quando você se casar”... e a menina foi-se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa coisa: casar.
 

De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se; não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande coisa”; ou então: “A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!”...
 

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito à felicidade, foram parecendo ni­nha­rias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe representou coisa importante, uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime, uma vergonha.
 

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer coisa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua inteligência, a ideia de casar-se incrustou-se teimosamente, como uma obsessão.
 

Ela não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho malfeito, mas galante, não muito baixa nem muito magra; e a sua aparência de bondade passiva, de indolência de corpo, de ideia e de sentidos, era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam “bonitinhas”. O seu traço de beleza dominante, porém, eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com tons de ouro, sedoso até ao olhar.
 

Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti e, à fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido, não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.
 

O pai fez má cara. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre, Maricota — dizia ele — quem são. Olho vivo!... É melhor prevenir que curar... Pode ser um valdevinos e...” Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista? perguntava ele de si para si. Um cida­dão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e ele acedeu.
 

Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo “paisano”, isto é, que não pediu, não é ainda “oficial”. No fim do primeiro ano, tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos, o general foi genero­samente em seu socorro. Pagou-lhe taxas de matrículas, livros e outras coisas. Não era raro que, após uma longa conversa com a filha, Dona Maricota viesse ao marido e dissesse: “Chico, arran­ja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia.”
 

O general era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretensão marcial, não havia no seu caráter a mínima falha. Demais, aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor, quando se tra­tava dos interesses delas. Ele ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e, até para evitar despesas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo dia; e assim o namoro foi correndo até ali.
 

— Enfim — dizia Albernaz à mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos — a coisa vai acabar.
 

— Felizmente — respondia-lhe Dona Maricota — vamos des­contar essa letra.
 

A satisfação resignada do general era porém falsa; ao con­trário, ele estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia ele:
 

— É um inferno essa vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!
 

Ao que Castro interrogava:
 

— Qual delas?
 

— A Ismênia, a segunda — respondia Albernaz, e logo acrescentava: — Tu é que és feliz: só tiveste filhos.
 

— Ah! meu amigo! — falava o outro cheio de malícia —aprendi a receita. Por que não fizeste o mesmo?
 

Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazéns, às lojas de louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente, e ter um ar de abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.
 

Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu cantando. Era raro que o fizesse, mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava uma velha ária, uma coisa do seu tempo de moça, e as filhas, que sentiam nisso sinal certo de alegria, corriam a ela pedindo-lhe isso ou aquilo.
 

Muito ativa, muito diligente, não havia dona de casa mais eco­nômica, mais poupada, e que fizesse render mais o dinheiro do marido, e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôs tudo em atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos; enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, e dis­pô-la com muito gosto e esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de Dona Maricota era grande; ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo, parecia-lhe feio e desonroso para a família. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter “descontado uma letra”, como ela dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.
 

Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre, e a filha, fria e indi­ferente.
 

— Mas, minha filha — dizia ela — até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí uma mosca-morta.
 

— Mamãe, que quer que eu faça?
 

— Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas também, assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.
 

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.
 

Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Ino­cêncio Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.
 

Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um pouco de inveja no olhar.
 

Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
 

— Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
 

Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam con­selhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes, e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par.
 

Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
 

— Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal muito bonito; você por que não vai ver, Ismênia? Parece barato.
 

Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas e, se as respondia, era por monossílabos. Houve um momento em que sorriu, quase com alegria e abandono. Estefânia, a doutora normalista, que tinha nos dedos um anel com tantas pedras, que nem uma joalheria, num dado momento chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:
 

— Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
 

Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê!
 

Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapa­zes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.
 

— Então, doutor, acabou, hein? — dizia este a jeito de um cumprimento.
 

— É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tro­peços, os embargos; fui de um heroísmo!...
 

— Conhece o Chavantes? — perguntava um outro.
 

— Conheço. Um cômico, um pândego...
 

— Foi seu colega?
 

— Foi, isso é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.
 

Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este, e já era obrigado a ouvir a observação de outro:
 

— É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no deve e haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.
 

— Atualmente não vale nada, meu caro senhor — dizia modestamente Cavalcanti. — Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores; como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...
 

— Pois doutor — acudia um outro — dou-lhe meus para­béns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!
 

— Ah! Seu sobrinho é formado? — inquiria delicadamente Cavalcanti.
 

— Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
 

— Boa carreira.
 

Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural.
 

Para aquela gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem, e mais alguma coisa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as coisas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isso não entrava nela de modo algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum na aparência, mas a sua substância tinha mudado, era outra diferente da deles, e fora ungido de não sei que coisa vagamente fora da natureza terrestre, quase divina.
 

Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O general ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas, o Major Inocêncio, o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Segismundo.
 

Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação militar. O contra-almirante era in­teressantíssimo. Na Marinha, por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi aos poucos se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos altos luga­res, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É curiosa essa coisa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos.
 

Certa vez, quando era já capitão-tenente, deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Nomearam-no para comandar o couraçado Lima Barros. Ele lá foi, mas, quando se apresentou ao comandante da flotilha, teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal Lima Barros fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguai. Consultou o comandante.
 

— Eu, no seu caso — disse-lhe o superior — partia imedia­tamente para a flotilha do Rio Grande.
 

Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma penosa e fatigante viagem. Mas aí também não estava o tal Lima Barros. Onde estaria então? Quis telegrafar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mês em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e, quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se às altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a conselho.
 

O Lima Barros tinha ido a pique durante a guerra do Paraguai.
 

Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Todos o tinham na conta de parvo, de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos qua­tro pontos cardeais. Deixaram-no “encostado”, como se diz na gíria militar, e ele levou quase quarenta anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, com graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consul­tas, que se referisse a promoções de oficiais. Comprava repertó­rios de legislação, armazenava coleções de leis, relatórios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante lite­ratura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação de sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam meses o infinito rosário de re­partições e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Mili­tar. Ultimamente constituíra advo­gado junto à Justiça Federal; e lá andava ele de cartório em cartório, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juízes e advogados — esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.
 

Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania deman­dista. Era renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo volun­tário da pátria, possuindo honras de major, não havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento, e de outros. Num, pedia inclusão no Asilo dos Inválidos; noutro, honras de tenente-coronel; noutro, tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver a dos outros.
 

Não se pejou, mesmo, de tratar do pedido de um maníaco que, por ser tenente honorário e, também, da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dois galões mais outros dois fazem quatro, o que quer dizer: major.
 

Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante, Bustaman­te fez a sua consulta.
 

— Assim de pronto, não sei. Não é a minha especialidade o Exército, mas vou ver. Isso também anda tão atrapalhado!
 

Acabando de responder, coçava um dos seus favoritos brancos, que lhe davam um ar de comodoro, ou de chacareiro português, pois era forte nele o tipo lusitano.
 

— Ah! meu tempo — observou Albernaz. — Quanta ordem! Quanta disciplina!
 

— Não há mais gente que preste — disse Bustamante.
 

Segismundo, por aí, aventurou também a sua opinião, dizendo:
 

— Eu não sou militar, mas...
 

— Como não é militar? — fez Albernaz com ímpeto. — Os senhores é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?
 

— Decerto, decerto — fez o almirante cofiando os favoritos.
 

— Como ia dizendo — continuou Segismundo — apesar de não ser militar, eu me animo a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?
 

— Não há mais, meu caro — confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio.
 

— Não sei por que, pois tudo hoje não vai pela ciência?
 

Fora Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz in­dignou-se e retrucou-lhe com certo calor:
 

— Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti, hein, Caldas? hein, Inocêncio?
 

O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. Enge­nheiro e empregado público, os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um enge­nheiro. Morando perto de Albernaz, era raro que não viesse toda tarde jogar o solo com o general. Doutor Florêncio perguntou:
 

— O senhor assistiu, não foi, general?
 

O general não se deteve, não se atrapalhou, não gaguejou, e disse com a máxima naturalidade:
 

— Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o Venâncio...
 

Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas, com as suas cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tama­rineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desaparecido do horizonte, e as tênues lu­zes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acen­der-se por detrás das vidraças.
 

Bustamante quebrou o silêncio:
 

— Este país não vale mais nada. Imaginem que o meu reque­rimento, pedindo honras de tenente-coronel, está no ministério há seis meses!
 

— Uma desordem — exclamaram todos.
 

Era noite. Dona Maricota chegou até onde eles estavam, muito ativa, muito diligente, e com o rosto aberto de alegria.
 

— Estão rezando? — E logo ajuntou: — Dão licença que diga uma coisa ao Chico, sim?
 

Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma coisa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes termos:
 

— Se não dançam é porque não querem. Estou pegando alguém?
 

Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou:
 

— Os senhores sabem, se a gente não animar, ninguém tira par, ninguém toca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!
 

— Bem, eu vou lá — disse Albernaz.
 

Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile.
 

— Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
 

E ele mesmo, em pessoa, ia juntando os pares: “Não, general, já tenho par”, dizia uma moça. “Não faz mal”, retrucava ele, “dance com o Raimundinho; o outro espera.”
 

Depois de ter dado início ao baile, veio para a roda dos amigos, suando, mas contente.
 

— Isso de família! Qual! A gente até parece bobo — dizia. — Você é que fez bem, Caldas; não se quis casar!
 

— Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
 

— Vamos jogar o solo — convidou Albernaz.
 

— Somos cinco, como há de ser? — observou Florêncio.
 

— Não, eu não jogo — disse Bustamante.
 

— Então jogamos os quatro de garrancho? — lembrou Albernaz.
 

As cartas vieram, e também uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florêncio dar. Começaram. Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante numa par­tida de whist. Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca, e a cabeça do lado para fugir à fumaça. Bustamante fora à sala ver as danças.
 

Tinham começado a partida quando Dona Quinota, uma das filhas do general, atravessou a sala e foi beber água. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou à moça:
 

— Então, Dona Quinota, quedê o Genelício?
 

A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno mu­xoxo e respondeu com falso mau humor:
 

— Ué! Sei lá! Ando atrás dele?
 

— Não precisa zangar-se, Dona Quinota; é uma simples pergunta — advertiu Caldas.
 

O general, que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:
 

— Eu passo.
 

Dona Quinota retirou-se. Esse Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era favorecida por todos. Dona Mari­cota e o marido enchiam-no de festas.
 

Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Ne­nhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Quando saía, remanchava, lavava três ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o diretor na porta. Acompa­nhava-o, conversava com ele sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava esse ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se esco­lher como intérpre­te dos companheiros e deitava um discurso; nos aniversários de nascimento, era um soneto que começava sempre por “Salve” e acabava também por “Salve! Três vezes Salve!” O mo­de­lo era sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data. No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto. Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser apro­vei­tado no Tribunal de Contas a se fundar, num posto acima.
 

Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramen­te gênio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. No intuito de anunciar aos minis­tros e diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando, desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpica­das aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses. Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em gran­de conta o seu saber, e ele vivia na seção cercado do res­peito de um gênio; um gênio do papelório e das informações. Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar, e tantos títulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz.Fora da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo!
 

O jogo continuava silenciosamente, e a noite avançava. No fim das mãos fazia-se um breve comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as falas sacramentais do jogo: “solo, bolo, melhoro, passo”. Feitas elas, jogava-se em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das danças e das conversas.
 

— Olhem quem está aí!
 

— O Genelício — fez Caldas. — Onde estiveste, rapaz?
 

Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pincenê azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos. Era um escriturário.
 

— Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.
 

— Vão bem? — perguntou Florêncio.
 

— Quase garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem cunhado!
 

— Estimo muito — disse o general.
 

— Obrigado. Sabe de uma coisa, general?
 

— O que é?
 

— O Quaresma está doido.
 

— Mas... o quê? Quem foi que te disse?
 

— Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde...
 

— Eu logo vi — disse Albernaz — aquele requerimento era de doido.
 

— Mas não é só, general — acrescentou Genelício. — Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.
 

— É o que eu dizia — fez Albernaz.
 

— Quem é? — perguntou Florêncio.
 

— Aquele vizinho, empregado do Arsenal; não conhece?
 

— Um baixo, de pincenê?
 

— Esse mesmo — confirmou Caldas.
 

— Nem se podia esperar outra coisa — disse o Doutor Florêncio. — Aqueles livros, aquela mania de leitura...
 

— Pra que ele lia tanto? — indagou Caldas.
 

— Telha de menos — disse Florêncio.
 

Genelício atalhou com autoridade:
 

— Ele não era formado, para que meter-se em livros?
 

— É verdade — fez Florêncio.
 

— Isso de livros é bom para os sábios, para os doutores — obser­vou Segismundo.
 

— Devia até ser proibido — disse Genelício — a quem não possuísse um título acadêmico, ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?
 

— Decerto — disse Albernaz.
 

— Decerto — fez Caldas.
 

— Decerto — disse Segismundo.
 

Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.
 

— Já saíram todos os trunfos?
 

— Contasse, meu amigo.
 

Albernaz perdeu, e lá na sala fez-se silêncio; Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala triunfantemente, com um largo sorriso na face, e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os finais em “s”, começou:

A vida é uma comédia sem sentido,
Uma história de sangue e de poeira,
Um deserto sem luz...


E o piano gemia.

CAPÍTULO IV

Desastrosas consequências de um requerimento

Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reu­nidos em torno da mesa de solo, na tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A força de ideias e sentimentos contidos em Quaresma, se havia revelado em atos imprevistos, com uma sequência brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro fato surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.
 

Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Câmara, o secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular, e que veio a ter uma fortuna de publi­cidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza.
 

O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de legislar não permitiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam próximos à Mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes à majestade do lugar. O riso é contagioso. O secretário, no meio da leitura, ria-se discretamente; pelo fim, já ria-se o presidente, ria-se o oficial da ata, ria-se o contínuo — toda a Mesa e aquela população que a cerca riram-se da petição largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria, que as lágrimas vieram.
 

Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de es­forço, de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo diante dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava à Mesa da Câmara; mas não aquele recebimento hilário, de uma hilaridade inocente, sem fundo algum, assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavalinhos, ou de uma careta de clown.
 

Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa, e só viam nele um motivo para riso franco e sem maldade. A sessão daquele dia fora fria e, por ser assim, as seções dos jornais referentes à Câmara, no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento, e glosaram-no em todos os tons.
 

Era assim concebida a petição:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma, usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.

 

O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original e, portanto, a emancipação política do país requer, como complemento e consequência, a sua emancipação idiomática.
 

Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua ori­gi­­nalíssima, aglutinante, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas da difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal; controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica.
 

Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida, e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade,

P. e E. deferimento.”

Assinado e devidamente estampilhado, esse requerimento do ma­jor foi, durante dias, assunto de todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com comentários facetos, não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre ele, quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. Uma ilustração semanal publicou-lhe a cari­catura, e o major foi apontado na rua.

 

Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito e troça, então! eram de um encarniçamento atroz com o pobre major. Com uma abundância que marcava a felicidade dos redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto vinha cheio dele: “o Major Quaresma disse isso; o Major Quaresma fez aquilo”.
 

Um deles, além de outras referências, ocupou uma página inteira com o assunto da semana. Intitulava-se a ilustração: “O ma­tadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma”, e o dese­nho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, “O açougue Quaresma”; na legenda, a cozinheira perguntava ao açougueiro:
 

— O senhor tem língua de vaca?
 

O açougueiro respondia:
 

— Não, só temos língua de moça; quer?
 

Com mais ou menos espírito, os comentários não cessavam, e a ausência de relações de Quaresma no meio do qual saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do subsecretário.
 

Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Vivendo há trinta anos quase só, sem se chocar com o mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor coisa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia imerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fora deles, ele não conhecia ninguém, e, com as pessoas com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos de todo o dia, coisas com que a sua alma e o seu coração nada tinham de ver. Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que a todos.
 

Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de es­tra­nho a tudo; às competições, às ambições, pois nada dessas coisas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu temperamento.
 

Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza de alma que vão habitar esses homens de uma ideia fixa — os grandes estudiosos, os sábios e os inventores; gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas das poesias de ou­tras épocas. É raro encontrar homens assim, mas os há, e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça.
 

A continuidade das troças feitas nos jornais, a maneira com que o olhavam na rua, exasperavam-no; e mais forte se enraizava nele a sua ideia. À medida que engolia uma troça, uma pilhéria, vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança, pesar-lhe todos os aspectos, exami­ná-la detidamente, compará-la a coisas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, à proporção que fazia isso, a sua própria convicção mostrava a inanidade da crítica, a ligeireza da pilhéria, e a ideia o tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais.
 

Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio, a repartição ficou furiosa. Nos meios burocráticos, uma superioridade que nasce fora deles, que é feita e organizada com outros materiais que não os ofícios, a sabença de textos de regulamentos e a boa caligrafia, é recebida com a hosti­lidade de uma pequena inveja. É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade, ao ano­nimato papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de inte­resse pecuniário; há uma questão de amor-pró­prio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé como eles — sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, às olhadelas superio­res dos ministros — com mais títulos à considera­ção, com algum direito a infringir as regras e os preceitos. Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o as­sas­sino marquês, que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu humilde colega de desgraça.
 

Assim, quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua nomeação, aparecem as pequeninas perfídias, as maledicências ditas ao ouvido, as indiretas; todo o arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se conven­ceu de que a vizinha se veste melhor do que ela. Amam-se, ou antes, suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas infor­mações, na redação, na assiduidade ao trabalho — mesmo os doutores, os bacharéis — do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total, e nenhum deles se pode capacitar que aquele tipo, aquele ama­nuense — como eles —, faça qualquer coisa que interesse os estra­nhos, e dê que falar a uma cidade inteira.
 

A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomea­da efêmera irritaram os seus colegas e superiores. “Já se viu!”, dizia o secretário. “Esse tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma coisa! Pretensioso!” O diretor, ao passar pela secre­taria, olhava-o de soslaio, e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o menos terrível, mas chamou-o logo de doido.
 

O major sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alusões, e isso mais aumentava o seu desespero e a teimosia na sua ideia. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa má vontade geral; era uma coisa inocente, uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o assentimento de todo mundo; e meditava, voltava à ideia, e a examinava com mais atenção.
 

A extensa publicidade que o fato tomou atingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios, viúvo, o an­tigo quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e que tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha, um imenso monograma sobre a porta da entrada, dois cães de louça nos pilares do portão da entrada, e outros detalhes equivalentes.
 

A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoável jardim na frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores, varanda, e um viveiro onde, pelo calor, os pássaros morriam tristemente. Era uma instalação burguesa, no gosto nacional, vistosa, cara, pouco de acordo com o clima, e sem conforto.
 

No interior, o capricho dominava; tudo obedecendo a uma fantasia barroca, a um ecletismo desesperador. Os móveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots; e a fantasia da fi­lha, irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem àquela coleção de coisas caras.
 

Viúvo havia já alguns anos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa, e a filha quem o encaminhava nas distrações e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração essa doce tirania. Queria casar a filha, bem e ao gosto dela; não punha, portanto, ne­nhum obstáculo ao programa de Olga. Em começo, pensou em dá-la a seu ajudante, ou contramestre, uma espécie de arquiteto que não desenhava, mas projetava casas e grandes edifícios. Primeiro, sondou a filha. Não encontrou resistência, mas não encontrou também assentimento. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da menina, aquele seu ar distante de heroína, a sua inteligência, o seu fantástico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar. “Ela quer um doutor”,  pensava ele, “que arranje! Com certeza não terá ceitil, mas eu te­nho, e as coisas se acomodam”.
 

Ele se havia habituado a ver, no doutor nacional, o marquês ou o barão de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acei­tável comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis.
 

Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósi­tos da menina. Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lírico, nos bailes; amando estar sentado em chinelas, a fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas atrás da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um fras­co de perfume.
 

Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas, cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento daquelas coisas que se adivinhava até no pagá-las. Mas ele ia, demorava-se, e esforçava-se por entrar no segredo, no mistério, cheio de tenacidade e candura perfei­tamente paternais.
 

Até aí, ele ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante as visitas, as colegas da filha, suas irmãs, com seus modos de falsa nobreza, os seus desdéns dissimulados, deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade, das amigas e das colegas de Olga. Não se aborrecia porém muito profundamente; ele assim o quisera e a fizera; tinha que se conformar. Quase sempre, quando chegavam tais visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto, não lhe era sempre possível fazer isso; nas grandes festas e recepções tinha que estar presente, e era quando mais sentia o vela­do pouco caso da alta nobreza da terra, que o frequentava. Ele ficara sempre empreiteiro, com poucas ideias além do seu ofício, não sabendo fingir, de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos, de bailes, de festas e passeios caros.
 

Uma vez ou outra, um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu, e muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos — uma ninharia! A questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquilo! E na segunda, seria também? E na terceira? Não era possível tanta distração. Adquiriu a certeza da trampo­linagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar ou­tra vez, e o passe foi posto em prática, Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade desse mundo:
 

— Os senhores sabem que há agora, na Europa, um novo sistema de jogar o poker?
 

— Qual é? — perguntou alguém.
 

— A diferença é pequena: joga-se com seis cartas, isso é, um dos parceiros, somente.
 

Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar, e a ga­nhar, despediu-se à meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns comentários sobre a partida, e não voltou mais.
 

Conforme o seu velho hábito, Coleoni lia de manhã os jornais, com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado à leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal. Ele não compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam tanta troça, caíam tão a fundo sobre a coisa, que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa, tendo praticado, por inadvertência, alguma falta grave.
 

Sempre o tivera na conta do homem mais honesto desse mundo, e ainda tinha; mas daí, quem sabe? Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pi­lhéria... Apesar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nele não só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio.
 

Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado; e como, apesar dos bastos anos de Brasil, ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha em grande consideração a erudição do compadre. Não é, pois, de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os jornais reprovavam.
 

Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que ele queria dizer. Cha­mou a filha.
 

— Olga!
 

Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava português, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões italianas.
 

— Olga, que quer dizer isto? Non capisco...
 

A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários.
 

— Che! Então?
 

— O padrinho quer substituir o português pela língua tupi, entende o senhor?
 

— Como?
 

— Hoje, nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi.
 

— Tutti?
 

— Todos os brasileiros, todos.
 

— Ma che coisa! Não é possível?
 

— Pode ser. Os tchecos têm uma língua própria, e foram obrigados a falar alemão depois de conquistados pelos austríacos; os lorenos, franceses...
 

— Per la madonna! Alemão é língua; agora, esse acujelê, ecco!
 

— Acujelê é da África, papai; tupi é daqui.
 

— Per Bacco! É o mesmo... Está doido!
 

— Mas não há loucura alguma, papai.
 

— Como? Então é coisa de um homem bene?
 

— De juízo, talvez não seja; mas de doido, também não.
 

— Non capisco.
 

— É uma ideia, meu pai, é um plano; talvez à primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas...
 

Por mais que quisesse, ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai. Neste, falava o bom senso, e nela, o amor às grandes coisas, aos arrojos e cometidos ousados. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação; e, se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo atrevimento do major, não foi decerto o de reprovação ou lástima, foi de piedade simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos, seguindo o seu sonho isolado, obscuro e tenaz.
 

— Isto vai causar-lhe transtorno — observou Coleoni.
 

E ele tinha razão. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores, e a suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em princípio, o subsecretário suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o supu­nham insciente no tupi, irritou-se, encheu-se de uma raiva surda, que se continha dificilmente. Como eram cegos! Ele que há trinta anos estudava o Brasil minuciosamente; ele que, em virtude desses estudos, fora obrigado a aprender o rebarbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única que o era — que suspeita miserável!
 

Que o julgassem doido, vá! Mas que desconfiassem da since­ridade de suas afirmações, não! E ele pensava, procurava meios de se reabilitar, caía em distrações, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dois: uma parte nas obrigações de todo o dia, e a outra, na preocupação de provar que sabia o tupi.
 

O secretário veio a faltar um dia, e o major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fora grande, e ele mesmo redigira e copia­ra uma parte. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre coi­sas de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da sala, com acento escarninho:
 

— Homero, isso de saber é uma coisa, dizer é outra.
 

Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na minuta, fosse pela alusão do funcionário Carmo, o certo é que ele insensivelmente foi tradu­zindo a peça oficial para o idioma indígena.
 

Ao acabar, deu com a distração, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram, para que ele examinasse. Novas preocupações afastaram a primeira; esqueceu-se, e o ofício em tupi seguiu com os companheiros. O diretor não reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério. Não se imagina o reboliço que tal coisa foi causar lá. Que língua era? Consultou-se o Doutor Rocha, o homem mais hábil da secretaria, a respeito do assunto. O funcionário limpou o pincenê, agarrou o papel, voltou-o de trás para diante, pô-lo de pernas para o ar, e concluiu que era grego, por causa do “yy”.
 

O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio, porque era bacharel em direito e não dizia coisa alguma.
 

— Mas — indagou o chefe — oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras? Creio que há um aviso de 84... Veja, senhor Doutor Rocha...
 

Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de le­gis­lação, andou-se de mesa em mesa pedindo auxílio à memória de cada um, e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Doutor Rocha, após três dias de meditação, foi ao chefe e disse com ênfase e segurança:
 

— O aviso de 84 trata de ortografia.
 

O diretor olhou o subalterno com admiração, e mais ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso, inteligente e... assíduo. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais; entretanto, não parecia regular usar uma que não fosse a do país.
 

O ministro, tendo em vista essa informação, e várias outras consultas, devolveu o ofício e censurou o Arsenal.
Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furio­samente, os contínuos andavam numa dobadoura terrível, e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar.

 

Censurado! monologava o diretor. Ia-se por água abaixo o seu generalato. Viver tantos anos a sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escriturário! Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
 

O secretário chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado do motivo, examinou o ofício e, pela letra, conheceu que fora Quaresma quem o escrevera.
 

— Mande-o cá — disse o coronel.
 

O major encaminhou-se, pensando nuns versos tupis que lera de manhã.
 

— Então, o senhor leva a divertir-se comigo, não é?
 

— Como? — fez Quaresma espantado.
 

— Quem escreveu isto?
 

O major nem quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distração e confessou com firmeza:
 

— Fui eu.
 

— Então confessa?
 

— Pois não. Mas Vossa Excelência não sabe...
 

— Não sabe! que diz?
 

O diretor levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. Tinha sido ofendido três ve­zes: na sua honra individual, na honra de sua casta, e na do estabelecimento de ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento científico do mundo. Além disso, escrevera no Pritaneu, a revista da escola, um conto — “A Saudade” — produção muito elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames plenamente e com distinção, uma dupla coroa — de sábio e artista — cingia-lhe a fronte. Tantos títulos, valiosos e raros de se encontrarem reunidos, mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformavam aquele “não sabe” de um amanuense em ofensa profunda, em injúria.
 

— Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isso! Tem o senhor porventura o curso do Benjamim Constant? Sabe o se­nhor Matemática, Astronomia, Física, Química, Sociologia e Mo­ral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que, por ter lido uns romances e saber um francesinho aí, pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo, 10 em Mecânica, 8 em Astronomia, 10 em Hidráulica, 9 em Descritiva? Então?!
 

E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma, que já se julgava fuzilado.
 

— Mas, senhor coronel...
 

— Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.
 

Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fora seu propó­sito duvidar da sabedoria do seu diretor. Ele não tinha nenhuma preten­são a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa; mas, quando viu aquela enxurrada de saber, de títulos a sobrenadar em águas tão furiosas, perdeu o fio do pensamento, a fala, as ideias, e nada mais soube nem pôde dizer.
 

Saiu abatido, como um criminoso, do gabinete do coronel, que não deixava de olhá-lo furiosamente, indignadamente, ferozmen­te, como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser.
 

Saiu afinal. Chegando à sala do trabalho, nada disse; pegou no chapéu, na bengala, e atirou-se pela porta afora, cambaleando como um bêbado. Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde, encontrou Ricardo Coração dos Outros.
 

— Cedo, hein, major?
 

— É verdade.
 

E calaram-se, ficando um diante do outro, num mutismo contrafeito. Ricardo avançou algumas palavras:
 

— O major, hoje, parece que tem uma ideia, um pensamento muito forte.
 

— Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
 

— É bom pensar, sonhar consola.
 

— Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros; cava abismos entre os homens...
 

E os dois separaram-se. O major tomou o bonde, e Ricardo des­ceu descuidado a Rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas, sobraçando o violão na sua armadu­ra de camurça.

CAPÍTULO V

O bibelot

Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena de vezes já subira aquela larga escada de pedra, com grupos de mármores de Lisboa, de um lado e do outro a Caridade e Nossa Senhora da Piedade, penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à esquerda e à direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente, e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade visitando Quaresma. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo; uns três ou quatro meses, se tanto.
 

Só o nome da casa metia medo. Hospício! É assim como uma sepultura em vida, um semienterramento, enterramento do espírito, da razão condutora, de cuja ausência os corpos raramente se ressentem. A saúde não depende dela, e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo, e para onde.
 

Com que terror, uma espécie de pavor de coisa sobrenatural, espanto de inimigo invisível e onipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam. No primeiro aspecto, não se compreendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por aquela casa imensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas gradeadas, a se estender por uns centos de metros, em face do mar imenso e verde, lá na entrada da baía. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e prece.
 

De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e respeitável, perdia-se logo a ideia popular da loucura; o escarcéu, os trejeitos, as fúrias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali. Não havia nada disso; era uma calma, um silêncio, uma ordem perfeitamen­te naturais. No fim, porém, quando se examinavam bem, na sala de visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares aparva­lha­dos, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheados e mer­gu­lhados em um sonho íntimo sem fim, e via-se também a excitação de uns mais viva em face à atonia de outros, é que se sentia bem o horror da loucura, o angustioso mistério que ela encerra, feito não sei de que inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real, para se apossar e viver das aparências das coi­sas, ou de outras aparências das mesmas. Quem uma vez esteve diante desse enigma indecifrável da nossa própria natureza, fica amedrontado, sentindo que o germe daquilo está depositado em nós, e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos ou­tros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e, para ele, não há mais semelhantes; o que foi antes da loucura é outro, muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança não começa, não se sente quando começa, e quase nunca acaba.
 

Com o seu padrinho, como fora? A princípio, aquele requeri­mento... Mas que era aquilo? Um capricho, uma fantasia, coisa sem importância, uma ideia de velho sem consequência. Depois, aquele ofício? Não tinha importância, uma simples distração, coisa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma ou­tra, que nos rebaixa... Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com o que se realizava fora dele e com os atos passados; um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de que ponto do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça, e enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse o seu próprio delírio. A casa, os li­vros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso valia, nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o real eram os inimigos, os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada, atordoada, sem direção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa, sempre com um homem ao lado — o pai, depois o irmão —, ela não sabia lidar com o mundo, com negócios, com as autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiência e ternura de irmã, oscilava entre a crença de que aqui­lo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples. Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai), que se interessava, chamando a si os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado, honesto, com emprego seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto, bastou um grãozinho de sandice...
 

Estava há uns meses no hospício o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vê-lo ali, naquela meia-prisão, decaído dele mesmo, que um ataque se seguia e não podia ser evitado. Vinham ela e o pai, às vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os três a visitá-lo.
 

Aquele domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda. O ar era macio e, docemente, o sol faiscava nas calçadas. O pai vinha lendo os jornais e ela pensando, de quando em quando folheando as revistas ilustradas que trazia para alegrar e distrair o padrinho.
 

Ele estava como pensio­nista, mas, mesmo assim, no começo, ela teve um certo pudor em se misturar com os visitantes. Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias; recalcou porém, dentro de si, esse pensamento egoísta, o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em destaque a sua elegância natural. Amava esses sacrifícios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza deles, e ficou contente consigo mesma.
 

No bonde vinham outros visitantes, e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda a gente, de várias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos. Os bem-vestidos e os malvestido s, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os inteligentes e os néscios, entravam com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor nos olhos, como se penetrassem noutro mundo.
 

Chegavam os parentes, e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas, fumo, meias, chinelas, às vezes livros e jornais. Dos doentes, uns conversavam com os parentes, outros manti­nham-se calados, num mutismo feroz e inexplicável, outros indiferentes; e era tal a variedade de aspectos dessas recepções, que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes, tanto ela variava neste ou naquele, para se pensar em caprichos pessoais, em ditames das vontades livres de cada um. E ela pensava como essa nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres; e como, na va­riedade da vida, a tristeza pode mais variar que a alegria, e como que dá o próprio movimento da vida. Verificando isso, quase teve satisfação, pois a sua natureza inte­ligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu espírito fazia.
 

Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer completamente. Chocando-se com aquele meio, houve logo nele uma reação salutar e necessária. Es­tava doido, pois se o punham ali... Quando veio a ter com o compadre e a afilhada, até trazia um sorriso de satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral era o mesmo. Não perdera totalmente a mansidão e a ternura no falar, mas quando a mania lhe tomava, ficava um tanto seco e desconfiado.
 

Ao vê-los, disse amavelmente:
 

— Então vieram, sempre... Estava à espera...
 

Cumprimentaram-se, e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.
 

— Como está Adelaide?
 

— Bem. Mandou lembranças e não veio porque... — adiantou Coleoni.
 

— Coitada! — disse ele, e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste; em seguida, perguntou:
 

— E o Ricardo?
 

A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria. Via-o já escapo à semissepultura da insânia.
 

— Está bom, padrinho. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada.
 

Coleoni tinha-se sentado. Quaresma também, e a moça esta­va de pé, para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar.
 

Guardas, internos e médicos passavam pelas portas com a indiferença profissional. Os visitantes não se olhavam, pareciam que não queriam conhecer-se na rua. Lá fora, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancólico, as montanhas a se recortar num céu de seda — a beleza da natureza imponente e indecifrável.
 

Coleoni, embora mais assíduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com satisfação que errava na sua fisionomia num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:
 

— O major já está muito melhor; quer sair?
 

Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:
 

— É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incomodar-te tanto, mas vocês, que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. Quem tem inimigos deve ter também bons amigos...
 

O pai e a filha entreolharam-se; o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam rebentar. A moça interveio de pronto:
 

— Sabe, padrinho, vou casar-me.
 

— É verdade — confirmou o pai. — A Olga vai casar-se, e nós vínhamos preveni-lo.
 

— Quem é teu noivo? — perguntou Quaresma.
 

— É um rapaz...
 

— Decerto — interrompeu o padrinho sorrindo.
 

E os dois acompanharam-no com familiaridade e contenta­mento. Era um bom sinal.
 

— É o Senhor Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? — fez Olga gentilmente.
 

— Então, é para depois do fim do ano.
 

— Esperamos que seja por aí — disse o italiano.
 

— Gostas muito dele? — indagou o padrinho.
 

Ela não sabia responder àquela pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E por que casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma coisa que não vinha dela; não sabia... Gostava de outro? Também não. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse, não tinham o “quê”, ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência, que a fascinasse ou subjugasse. Ela não sabia bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas inclinações a qualidade que ela queria ver dominante no homem. Era o heroico, era o fora do comum, era a força de projeção para as grandes coisas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos, quando as ideias e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse anelo, esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino. E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. É tão difícil ver nitidamente num homem de vinte a trinta anos o que ela sonhara, que era bem possível tomasse a nuvem por Juno... Casava por hábito de sociedade, um pouco por curiosidade, e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade.
 

Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:
 

— Gosto.
 

A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rápida, não convinha fatigar a atenção do convalescente. Os dois saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.
 

Na porta, já havia alguns visitantes à espera do bonde. Como não estivesse o veículo no ponto, foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. Em meio do caminho, encontraram encos­tada ao gradil uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ela:
 

— Que tem, minha velha?
 

A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar, úmido e doce, cheio de uma irremediável tristeza, e respondeu:
 

— Ah, meu sinhô!... É triste... Um filho tão bom, coitado!
 

E continuou a chorar. Coleoni começou a comover-se; a filha olhou-a com interesse, e perguntou no fim de um instante:
 

— Morreu?
 

— Antes fosse, sinhazinha.
 

E por entre lágrimas e soluços, contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia às perguntas; era como um estranho. Enxugou as lágrimas e concluiu:
 

— Foi coisa feita.
 

Os dois afastaram-se tristes, levando na alma um pouco daquela humilde dor.
 

O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Açúcar erguia-se negro, hirto e solene, das ondas espumejantes, e como que punha uma sombra no dia muito claro. No Instituto dos Cegos, tocavam violino, e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair daquelas coisas todas, da sua tristeza e da sua solenidade.
 

O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca. É bom ver-se a cidade nos dias de descanso, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos ressoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto: faltam-lhe as carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em velocípedes, atiram bolas, e ainda mais se sente a diferença da cidade no dia anterior. Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos, e só encontravam, por vezes, casais que iam apressadamente a visitas, como eles agora. O Largo de São Francisco estava silencioso, e a estátua, no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse à casa de Quaresma.
 

Lá foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros, grupos de caixeiros com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas antediluvianas ao lado de vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentárias; e o domingo aparecia assim deco­rado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos. Dona Adelaide não estava só. Ricardo viera visitá-la e conver­savam. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, ele contava à velha senhora o seu último triunfo:
 

— Não sei como há de ser, Dona Adelaide. Eu não guardo as minhas músicas, não escrevo; é um inferno!
 

O caso era de pôr um autor em maus lençóis. O Senhor Paysan­dón, de Córdoba (República Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito pedindo exemplares de suas mú­sicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escritos, mas a música não. É verdade que as sabia de cor, porém, escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua força.
 

— É o diabo! — continuou ele. — Não é por mim; a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.
 

A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo vio­lão. A sua educação, que se fizera vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admitir que ele preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. Delicada entretanto, suportava a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos.
 

Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Os pequenos serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui ficaram a cargo de Ricardo, que os desem­pe­nhara com boa vontade e diligência. Atualmente, era ele o en­car­regado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo.
 

É um trabalho árduo esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática. Aposentado o sujeito solenemente por um decreto, a coisa corre uma dezena de repartições e funcio­ná­rios para ser ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: “ainda estou fazendo o cálculo”; e a coisa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.
 

Coleoni era o procurador do major, mas não sendo entendido em coisas oficiais, entregou a Coração dos Outros aquela parte do seu mandato. Graças à popularidade de Ricardo, e da sua candura, vencera a resistência da máquina burocrática e a liquidação estava anunciada para breve. Foi isso que ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto ele como Dona Adelaide, notícias do amigo e do irmão.
 

A irmã nunca entendera direito o irmão; com a crise, não o ficou compreendendo melhor, mas o sentira profundamente, com o sentimento simples de irmã, e desejava ardentemente a sua cura.
 

Ricardo Coração dos Outros gostava do major, encontrara nele certo apoio moral e intelectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples diletantes; mas o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra. De resto, ele ago­ra sofria particu­larmente; sofria na sua glória, produto de um lento e seguido trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas, e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu. Aborrecia-se com o rival por dois fatos: primeiro, pelo sujeito ser preto; e segundo, por causa das suas teorias. Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão era que tal coisa diminuiria ainda mais o prestígio do instrumento. Se o seu rival tocasse piano e, por isso, ficasse célebre, não havia mal algum; ao contrário, o talento do rapaz levantava a sua pessoa por intermé­dio do instrumento considerado; mas tocando violão, era o inverso; o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão, que ele tanto estimava. E além, disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma coisa e tenha versos certos! Que tolice!
 

E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um obstáculo imprevisto na subida mara­vilhosa para a sua glória. Precisava afastá-lo, esmagá-lo, mostrar a sua superioridade indiscutível; mas como? O reclame já não bastava; o rival o empregava também. Se ele tivesse um homem notável, um grande literato que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra, a vitória estava certa. Era difícil encontrar; esses nossos literatos eram tão tolos, e viviam tão absorvidos em coisas francesas... Pensou num jornal, O Violão, em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica. Era isso que precisava obter, e a esperança estava em Quaresma, atualmente recolhido ao hospício, mas felizmente em via de cura.
 

Sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.
 

— Não pude ir hoje — disse ele — mas irei domingo. Está mais gordo?
 

— Pouca coisa — disse a moça.
 

— Conversou bem — acrescentou Coleoni. — Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.
 

— Vai casar-se, Dona Olga? Parabéns.
 

— Obrigada — fez ela.
 

— Quando é, Olga? — perguntou Dona Adelaide.
 

— Lá para o fim do ano... Tem tempo...
 

E logo choveram perguntas sobre o noivo, e afloraram as consi­derações sobre o casamento. E ela se sentia vexada; julgava tanto as perguntas como as consi­derações impudentes e irritantes; queria fugir à conversa, mas voltavam ao mesmo assunto, não só Ricardo, mas a velha Ade­laide, mais loquaz e curiosa que comumente. Esse suplício, que se repetia em todas as visitas, quase a fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. Por fim, achou um subterfúgio, perguntando:
 

— Como vai o general?
 

— Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Ele deve andar bem, a Ismênia é que anda triste, desolada, coitadinha!
 

Dona Adelaide contou, então, o drama que agitava a peque­nina alma da filha do general. Cavalcanti, aquele Jacó de cinco anos, embarcara para o interior há três ou quatro meses, e não mandara nem uma carta, nem um cartão. A menina tinha aquilo como um rompimento; e ela, tão incapaz de um sentimento mais profundo, de uma aplicação mais séria de energia mental e física, sentia-o muito, como coisa irremediável que absorvia toda a sua atenção.
 

Para Ismênia, era como se todos os rapazes casadouros tivessem deixado de existir. Arranjar outro era problema insolúvel, era trabalho acima de suas forças. Coisa difícil! Namorar, es­crever cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios — ela não podia mais com isso. Decididamente, estava condenada a não se casar, a ser tia, a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a apavorava. Quase não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz duro e fortemente ósseo; independente da memória dele, vinha-lhe sempre à cons­ciên­cia, quando de manhã o estafeta não lhe entregava carta, essa outra ideia: não casar.
 

Era um castigo... A Quinota ia casar-se; o Genelício já estava tratando dos papéis e ela, que esperara tanto e fora a primeira a noivar-se, ia ficar maldita, rebaixada diante de todos. Parecia-lhe até que ambos estavam contentes com aquela fuga inexplicável de Ca­valcanti. Como eles se riam durante o carnaval! Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos — aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento —, em face do seu abandono.
 

Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles, que lhe parecia indecente e hostil; mas o escárnio da irmã, que lhe dizia cons­tantemente: “Brinca, Ismênia! Ele está longe, vai aproveitando” — metia-lhe raiva, a raiva terrível da gente fraca, que corrói interiormente por não poder arrebentar de qualquer forma. Então, para espantar os maus pensamentos, ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem à sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquele ruído de atabaques e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava, e como que a ideia que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça. De resto, aqueles vestuários extravagantes de índios, aqueles adornos de uma mitologia francamente selvagem — jacarés, cobras, jabutis —, vivos, bem vivos, traziam à pobreza de sua ima­ginação ima­gens risonhas de rios claros, florestas imensas, lugares de sos­sego e pureza que a reconfortavam. Também aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro, e de uma grande indigência melódica, vinham como reprimir a mágoa que ia nela abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas para o que, não lhe sobrava força bastante e suficiente.
 

O noivo partira um mês antes do carnaval e, depois do grande festejo carioca, a sua tortura foi maior. Sem hábitos de leitura e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar.
 

Era-lhe doce chorar.
 

Nas horas da entrega da correspondência, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e voltava ao seu pensamento: não casar.
 

Dona Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Is­mênia, comentou:
 

— Merecia um castigo isso, não acham?
 

Coleoni interveio com brandura e boa vontade:
 

— Não há razão para desesperar. Há muita gente que tem preguiça de escrever...
 

— Qual! — fez Dona Adelaide. — Há três meses, Senhor Vicente!
 

— Não volta — disse Ricardo sentenciosamente.
 

— E ela ainda o espera, Dona Adelaide? — perguntou Olga.
 

— Não sei, minha filha. Ninguém entende essa moça. Fala pouco; se fala, diz meias palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
 

— É orgulho? — perguntou ainda Olga.
 

— Não, não... Se fosse orgulho, ela não se referia de vez em quando ao noivo. É antes moleza, preguiça... parece que ela tem medo de falar, para que as coisas não venham a acontecer.
 

— E os pais, que dizem a isso? — indagou Coleoni.
 

— Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incômodo do general não é grande, e Dona Maricota julga que ela deve arranjar outro.
 

— Era o melhor — disse Ricardo.
 

— Eu creio que ela não tem mais prática — disse sorrindo Dona Adelaide. — Levou tanto tempo noiva...
 

E a conversa já tinha virado para outros assuntos, quando Ismênia veio fazer a sua visita diária à irmã de Quaresma. Cumprimentou todos, e todos sentiram que ela penava. O sofrimento dava-lhe mais atividade à fisionomia. As pálpebras estavam roxas, e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Indagou da saúde de Quaresma e, depois, calaram-se um instante. Por fim Dona Adelaide lhe perguntou:
 

— Recebeste carta, Ismênia?
 

— Ainda não — respondeu ela, com grande economia de voz.
 

Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veio atirar ao chão uma figurinha de biscuit que se esfacelou em inúmeros fragmentos, quase sem ruído.

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO I

​​​​No Sossego

Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspecto tranquilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau formando a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava para uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regato de águas paradas e sujas cortava-a paralelamente à testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando a planície com a fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas de um e de outro lado, saía da esquerda e ia ter à estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha, assim, um amplo horizonte, olhando para o levante, a “noruega”, e era também risonha e graciosa nos seus caiados. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo, possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas, e uma varanda com uma colunata heterodoxa. Além desta principal, o sítio do Sossego, como se chamava, tinha outras construções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.
 

Não havia três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do Rio por estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades. Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia; não delirava, e os seus gestos e propósi­tos eram de homem comum, embora, sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos anos. Foram mais seis meses de repouso e útil sequestração que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica.
 

Quaresma viveu lá no manicômio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sábios a maldizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem sábios; mas, deles todos, daquele que mais se admirou, foi de um velho e plácido nego­cian­te da Rua dos Pescadores, que se supunha Átila. “Eu — dizia o pacato velho — sou Átila, sabe? Sou Átila.” Tinha fracas notícias do personagem; sabia o nome e nada mais. “Sou Átila, matei muita gente” — e era só.
 

Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as coisas tristes de ver no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente. Aquela continuação da nossa vida, tal e qual, com um desarranjo imperceptível, mas profundo, e quase sempre insondável, que a inutiliza inteiramente e faz pensar em alguma coisa mais forte que nós, que nos guia, que nos impele, e em cujas mãos somos simples joguetes. Em vários tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada; e deve haver razão nisso, no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é alguém que vê por ele, interpreta as coisas por ele, es­tá atrás dele, invisível!...
 

Quaresma saiu envolvido, penetrado da tristeza do manicômio. Voltou a sua casa, mas a vista das suas coisas familiares não lhe tirou a forte impressão da qual vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral; e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedi­cava a modestas culturas.
 

Não fora ele, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe à ideia aquele doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquele estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sair, enclausurado em sua casa de São Cristóvão, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho, meiga e filialmente:
 

— O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha?
 

Tão taciturno que ele estivesse, não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada:
 

— É verdade, minha filha. Que magnífica ideia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo... O milho pode dar até duas colheitas, a quatrocentos por um...
 

A moça esteve quase arrependida de sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do padrinho manias já extintas.
 

— Em toda a parte, não acha, meu padrinho? há terras férteis.
 

— Mas como no Brasil — apressou-se ele em dizer — há poucos países que as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata-inglesa... Tu irás ver as mi­nhas cul­­turas, a minha horta, e meu pomar; então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras!
 

A ideia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amansado e só esperava uma boa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento mo­ral, e veio-lhe a atividade mental cerebrina, por assim dizer, de ou­tros tempos. Indagou dos preços correntes das frutas, dos legu­mes, das batatas, dos aipins; calculou que cinquenta laranjeiras, trinta abacateiros, oitenta pessegueiros, outras árvores frutíferas, além dos abacaxis (que mina!), das abóboras e outros produtos menos importantes, podiam dar o rendimento anual de mais de quatro contos, tirando as despesas. Seria ocioso trazer para aqui os deta­lhes dos seus cálculos, baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional. Levou em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira, de hectare cultivado, e também os salários, as perdas inevitáveis; e, quanto aos preços, ele foi em pessoa ao mercado buscá-los. Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos. Encarou-a por todas as faces, pesou as vantagens e ônus; e muito contente ficou em vê-la monetariamente atraente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma demonstração das excelências do Brasil.
 

E foi obedecendo a essa ordem de ideia que comprou aquele sítio, cujo nome Sossego cabia tão bem à nova vida que adotara após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. Não ficava longe do Rio, e ele o escolhera assim mesmo, maltratado, abandonado, para melhor demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho no trabalho agrícola. Esperava grandes colheitas de frutas, de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando, em breve, a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante, a dispensar os argentinos e europeus.
 

Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquela vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos, fosse servir para salão de baile fútil, fosse testemunhar, talvez, rixas de casais desentendidos, ódios de família; ela, tão boa, tão doce, tão simpática, com o seu teto alto e as suas paredes lisas em que se tinham incrustado os desejos de sua alma, e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!...
 

Ele foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da terra facilmente, do­cemen­te, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudável?
 

E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter so­frido a miséria da cidade e a emasculação da repartição pública durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse, antes da morte, travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. Então, pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e costumes; o que era principal à grandeza da pátria estremecida era uma forte base agrícola, um culto pelo seu solo ubérrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ela tinha de preencher. Demais, com terras tão férteis, climas variados, a permitir uma agricultura fácil e rendosa, esse cami­nho estava naturalmente indicado.
 

E ele viu, então, diante dos seus olhos, as laranjeiras em flor, olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das colinas, como buquês de noiva; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis coroados como reis, recebendo a unção quente do sol; as aboboreiras a se arrasta­rem com flores carnudas cheias de pólen; as melancias, de um verde tão fixo que parecia pintado; os pêssegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambus, as mangas capitosas; e dentre tudo aquilo, surgia uma linda mulher, com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um imaterial sorriso demorado de deusa — era Pomona, a deusa dos vergéis e dos jardins!...
 

As primeiras semanas que passou no Sossego, Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nela terra bastante, velhas árvores frutíferas, um capoeirão grosso com camarás, guaperuvus, tinguacibas, tabebuias, monjolos, e outros espécimes. Anastácio, que o acompanhara, apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma, muito lido e sabido em coisas brasileiras.
 

O major logo organizou um museu dos produtos naturais do Sossego. As espécies florestais e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares e, quando era possível, com os cientí­ficos; os arbustos, em herbário; e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e transversalmente.
 

Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais, e o furor autodidata dera a Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia.
 

Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inven­tário, os animais também; mas como ele não tinha espaço sufi­ciente, e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma li­mi­tou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de tatus, cutias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, curiós, coleiros, tiês etc. A parte mineral era pobre: argilas, areia e, aqui e ali, uns blocos de granito esfoliando-se.
 

Acabado esse inventário, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola, e uma relação de instrumentos meteo­rológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura. Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros, pluviômetros, higrômetros, anemôme­tros. Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente.
 

Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta coisa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro, Anastácio, ao lado, olhava-o espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado e disse:
 

— Sabes o que estou fazendo, Anastácio?
 

— Não sinhô.
 

— Estou vendo se choveu muito.
 

— Para que isso, patrão? A gente sabe logo de olho quando chove muito ou pouco... Isso de plantar é capinar, pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar.
 

Ele falava com a sua voz mole de africano, sem “rr” fortes, com lentidão e convicção.
 

Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consi­deração o conselho de seu empregado. O capim e o mato co­briam as suas terras. As laranjeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de galhos mortos, e cobertos de uma cabeleira medusoide de erva-de-passarinho; mas como não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. De manhã, logo ao ama­nhecer, ele mais Anastácio, lá iam, de enxada ao ombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo — o verão estava no auge —, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.
 

Era de vê-lo, coberto com um chapéu de palha de coco, atracado a um grande enxadão de cabo nodoso, ele, muito pequeno, míope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaxima. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agrícola. Anastácio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto, andar naquele sol a capinar, sem saber?... Há cada coisa neste mundo!
 

E os dois iam continuando. O velho preto, ligeiro, rápido, raspando o mato rasteiro com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo, destruindo a erva má; Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada arbusto e, às vezes, quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal, fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de cavalaria. Anastácio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:
 

— Não é assim, seu majó. Não se mete a enxada pela terra adentro. É de leve, assim.
 

E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho. Quaresma agarrava-o, punha-se em posição, e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira ensinada. Era em vão. O flange batia na erva, a enxada saltava, e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve várias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando ao chão, fê-lo perder o equilíbrio, cair, a beijar a terra, mãe dos frutos e dos homens. O pincenê saltava, partia-se de encontro a um seixo.
 

O major ficava todo enfurecido, e voltava com mais rigor e ener­gia à tarefa que se impusera; mas, tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de nossa vida, que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito, a maneira de empregar a enxada vetusta. Ao fim de um mês, ele capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com grandes repousos, de hora em hora, que a sua idade e falta de hábito requeriam.
 

Às vezes, o fiel Anastácio seguia-o no descanso, e ambos, lado a lado, à sombra de uma fruteira mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das árvores e punha nas coisas um forte acento de resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-dia, quando o calor parecia narcotizar tudo, e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho major percebia bem a alma dos trópicos, feita de desen­contros como aquele que se via agora, de um sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que ele mesmo provocava. Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior aquecidas ra­pidamente sobre um improvisado fogão de calhaus, e o trabalho ia assim, até à hora do jantar. Havia em Quaresma um entusiasmo sincero, entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua ideia. Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra; aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incom­preensível ódio pela enxada fecundante. Capinava e capinava sem­pre, até vir jantar.
 

Esta refeição ele fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a área já limpa.
 

— Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas; não ficará nem mais uma touceira de mato.
 

A irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas coisas da roça. Considerava-o silenciosa e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira! Seguira-o ao Sossego e, para entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do irmão cultivador.
 

— Está direito — dizia ela, quando o irmão lhe contava as coisas do seu trabalho. — Não vá ficares doente... Nesse sol, todo o dia...
 

— Qual, doente, Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí?... Se adoecem, é porque não trabalham.
 

Acabado o jantar, Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro, e atirava migalhas de pão às aves. Ele gostava desse espetáculo, daquela luta encarniçada entre patos, gansos, galinhas — pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem redu­zida da vida e dos prêmios que ela comporta. Depois, fazia in­da­gações sobre a vida do galinheiro:
 

— Já nasceram os patos, Adelaide?
 

— Ainda não. Faltam oito dias ainda.
 

E logo a irmã acrescentava:
 

— Tua afilhada deve casar-se sábado, tu não vais?
 

— Não. Não posso... Vou incomodar-me, luxo... Mando um leitão e um peru.
 

— Ora, tu! Que presente!
 

— Que é que tem? É da tradição.
 

Justamente, estavam nesse dia assim a conversar os dois ir­mãos na sala de jantar da velha casa roceira quando Anastácio veio avi­sar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira.
 

Desde que ali se instalara, nenhuma visita batera à porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do lugar, a pedir isso ou aquilo, esmolando disfarçadamente. Ele mesmo não travara conhecimento com ninguém, de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.
 

Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Este já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda adentro.
 

— Boas-tardes, major.
 

— Boas-tardes. Faça o favor de entrar.
 

O desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele de estranho era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de repente; que comia a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto, que entesoura enxúndia para o inverno ingrato. Através da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal; e, se devia ser gordo, não era naquela idade, com pouco mais de trinta anos, sem dar tempo que todo ele engordasse, porque, se as duas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras, com longos dedos fusiformes e ágeis. O visitante falou:
 

— Eu sou o Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria...
 

— Alguma formalidade? — indagou medroso Quaresma.
 

— Nenhuma, major. Já sabemos quem o senhor é; não há novidade nem nenhuma exigência legal.
 

O escrivão tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma, e continuou:
 

— Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incomodá-lo... Não é coisa de importância... Creio que o major...
 

— Oh! Por Deus, tenente!
 

— Venho pedir-lhe um pequeno auxílio, um óbolo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou tesoureiro.
 

— Perfeitamente. É muito justo. Apesar de não ser religioso, estou...
 

— Uma coisa nada tem com a outra. É uma tradição do lugar que devemos manter.
 

— É justo.
 

— O senhor sabe — continuou o escrivão — a gente daqui é muito pobre, e a irmandade também, de forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, major...
 

— Não. Espere um pouco...
 

— Oh! major, não se incomode. Não é pra já.
 

Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fora e acrescentou:
 

— Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?
 

— Muito bem.
 

— Pretende dedicar-se à agricultura?
 

— Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
 

— Isso hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sítio já foi uma lindeza, major! Quanta fruta! Quanta farinha! As terras estão cansadas e...
 

— Qual cansadas, Seu Antonino! Não há terras cansadas... A Europa é cultivada há milhares de anos, entretanto...
 

— Mas lá se trabalha.
 

— Por que não se há de trabalhar aqui também?
 

— Lá isso é verdade; mas há tantas contrariedades na nossa terra que...
 

— Qual, meu caro tenente! Não há nada que não se vença.
 

— O senhor verá com o tempo, major. Na nossa terra não se vive senão de política; fora disso, babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...
 

Ao dizer isso, o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a ingênua fisionomia de Quaresma.
 

— Que questão é? — indagou Quaresma.
 

O tenente parecia que esperava a pergunta, e logo fez com alegria:
 

— Então não sabe?
 

— Não.
 

— Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto, moço honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos pre­sidentes de Câmaras Municipais do Distrito, que se hão de sobre­por ao governo só porque o Senador Guariba rompeu com o gover­nador; e, zás! apresentaram um tal Neves, que não tem serviço algum ao partido, e nenhuma influência... Que pensa o senhor?
 

— Eu?... Nada!
 

O serventuário do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no município de Curuzu, não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o gover­nador do Estado? Não era possível! Pensou e sorriu le­vemente. Com certeza, disse ele consigo, esse malandro quer ficar bem com os dois, para depois arranjar-se sem dificuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele estrangeiro, que vinha não se sabe donde!
 

— O major é um filósofo — disse ele com malícia.
 

— Quem me dera... — fez com ingenuidade Quaresma.
 

Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão mas, desanimado de penetrar nas tenções ocultas do major, apagou a fisionomia e disse em ar de despedida:
 

— Então, o major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
 

— Decerto.
 

Os dois se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desapareceu na estrada, e o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante. Não atinava por que uma rezinga entre dois figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da esfera daqueles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos, de atas, no trabalho de fecundá-la, de tirar dela seres, vidas — trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guaribas quando a nossa vida pede tudo à terra, e ela quer carinho, luta, trabalho e amor... O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo.
 

O trem apitou, e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emo­ção especial de quem mora longe essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicação com o resto do mundo. Há uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se também em más. A alternativa angustia... O trem ou o vapor como que vem do in­determinado, do Mistério, e traz, além de notícias gerais, boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.
 

Quaresma esperou o trem. Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora, à luz forte do sol poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e saiu a levar notícias, amigos, riquezas, tristezas, por outras estações além.
 

O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os nossos educadores de dois mil anos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava à estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pincenê e assestou-o para o homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquele chapéu dobrado, como um morrião... Aquele fraque comprido... Passo miúdo... Um violão! Era ele!
 

— Adelaide, está aí o Ricardo!

 

​​CAPÍTULO II

Espinhos e flores

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto; mais influí­ram, porém, os azares das construções.
 

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qual­quer pode ser imaginado. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis, e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado. Às ve­zes, se sucedem na mesma direção com uma frequência irritante, outras, se afastam, e dei­xam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras, numa angústia de espaço desoladora; logo adian­te, um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva. Marcham assim ao acaso as edificações e, consequente­men­te, o arruamento. Há casas de todos os gostos, e cons­truídas de todas as formas. Vai-se por uma rua a ver um correr de cha­lés de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados. De repente, se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cima­lha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que parece vexada, a querer ocultar-se diante daquela onda de edi­fícios disparatados e novos.
 

Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades europeias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
 

Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em certas partes e outras não; algu­mas vias de comunicação são calçadas, e outras, da mesma impor­tância, estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio seco e, passos além, temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntados.
 

Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de chita; e assim, pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é quem entra na melhor casa.
 

Além disso, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico. As casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles, bem inédito. Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino.
 

Não se podem imaginar as profissões mais tristes e mais ino­pinadas da gente que habita tais caixinhas. Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fa­bri­cantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros, catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivi­nhar. Às ve­zes, num cubículo desses se amontoa uma família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem.
 

Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. Não era das sórdidas, mas era uma casa de cômodos dos subúrbios. Desde anos que ele a habitava, e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina, olhan­do da ja­nela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos.
 

Vistos assim do alto, os subúrbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira alta e soberba, fazem a vista boa, e a falta de percepção do desenho das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática, de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitavam; e o trem minúsculo, rápido, atravessa tudo aquilo, dobrando à esquerda, inclinando-se para a direita, muito flexível nas suas grandes vértebras de carros, como uma cobra entre pedrouços.
 

Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triunfos e, também, os seus sofrimentos e mágoas. Ainda agora estava ele lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquela bela, grande e original cidade, capital de um grande país que, a modos que era, e sentia ser em sua alma, con­substan­ciado os seus tênues sonhos e desejos em versos discutíveis, mas que a plangência do violão, se não lhes dava sentido, dava um quê de balbucio, de queixume dorido da pátria, criança ainda, ainda na sua formação...
 

Em que pensava ele? Não pensava só, sofria também. Aquele tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha di­zer alguma coisa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival dele, Ricardo; outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros; e alguns mais — ingratos! — já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
 

Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infância, daquela sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitelos... E o queijo? Aquele queijo tão substan­cial, tão forte, feio como aquela terra, mas feraz como ela, tanto que bastava comer dele uma pequena fatia para se sentir almo­çado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, não lhe predissera o futuro? “Irás longe, Ricardo. A viola. A viola quer teu coração.” Por que então aquele encarniçamento, aquele ódio contra ele — ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a substância do país?
 

E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá longe... Era bela a terra, era linda, era majestosa, mas parecia ingrata e áspera no seu granito onipresente, que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores.
 

E ele estava ali só, só com a sua glória e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como um deus, ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova. Sofria em não ter um peito amado, amigo, em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo indiferente. Por aí, lembrou-se dos famosos versos:

Se choro... bebe o pranto a areia ardente...

Com a lembrança, ele baixou um pouco o olhar à terra e viu que, no tanque da casa, um tanto escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro à pedra, e recomeçava. Teve pena daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois, pôs-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleado no enigma do nosso miserável destino humano.

 

A rapariga não o viu, distraída com o trabalho, e se pôs a cantar:

Da doçura dos teus olhos
A brisa inveja já tem


Era dele. Ricardo sorriu satisfeito, e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher, abraçá-la...

 

E como eram as coisas! Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas, esse seu antecessor feliz, que teve um auditório de fidalgas:

Lereno alegrou os outros
E nunca teve alegria...


Enfim, era uma missão!... A rapariga acabou de cantar, e Ricardo não se pôde conter:

 

— Vai bem, Dona Alice, vai bem! Se não fosse, por que eu lhe pedia bis?
 

A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
 

— Não sabia que o senhor estava aí, senão não cantava na vista do senhor.
 

— Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
 

— Deus me livre! Para o senhor me acriticar...
 

Embora insistisse muito, a rapariga não quis continuar. As mágoas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa, na tenção de escrever.
 

O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível. Havia uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho; sobre ela, obje­tos de escrever, uma cadeira, uma estante com livros e, pendurado a uma parede, o violão na sua armadura de camurça. Havia também uma máquina para fazer café. Sentou-se e quis começar uma mo­dinha sobre a glória, essa coisa fugaz que se tem e se pensa que não se tem; alguma coisa impalpável, “incolhível” como um sopro, que nos alanceia, queima, inquieta e abrasa, como o amor.
 

Tentou começar, dispôs o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada com a ideia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. Não conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a música zumbir no ouvido.
 

A manhã ia alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar, e o céu estava de um azul ligeiro, tênue, fino. Quis sair, procurar um amigo, espairecer com ele, mas quem? Ainda se o Quaresma...
 

Ah! o Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo. É verdade que, ultimamente, esse seu amigo se achava pouco interes­sado pela modinha; mas assim mesmo compreendia o seu pro­pósito, os fins e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se propunha. Ainda se o major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dois mil-réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria.
 

Bateram à porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:

“Meu caro Ricardo — Saúde! —, Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ela e o noivo fazem muito gosto que você apareça. Se o amigo não estiver comprometido com alguém, agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco. Seu amigo Albernaz.”

O trovador, à proporção que lia, ia mudando de fisionomia. Até então, estava carregada e dura; quando acabou de ler o bi­lhe­te, um sorriso brincava por toda ela, descia e subia, ia de uma face a outra. O general não o abandonara; para o res­peitável mi­litar, Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria, e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente, como se fosse um ídolo benfazejo.

 

Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o último brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas, em pequenos grupos. Dona Maricota vestia seda malva, e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado naquele tecido caro, que parece requerer corpos elegantes e flexíveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ela era alta, de feições mais regulares que a irmã Ismênia, mas menos interessante, e mais comum de temperamento e alma, embora faceira. Lalá, a terceira filha do general, que já se ajeitava a moça, tinha muito pó-de-arroz; estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genelício dava o braço à noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha bem à mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz. Ricardo não os viu passar pois, ao entrar, a fila estava no general, metido num segundo uniforme, dos grandes dias, que lhe ia mal, como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. Fora padrinho, e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme. As âncoras reluziam como metais de bordo em hora de revista, e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismênia estava de rosa, e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providências. Lulu, o único filho do general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos empenhos do pai.
 

O general não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um “sou muito feliz...” deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel. Deram começo às danças e o general, o almirante, o Major Inocêncio Bustamante — que também viera de uniforme, com a sua banda roxa de hono­rário —, o Doutor Florêncio, Ricardo e dois convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
 

O general estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma ceri­mônia daquelas em sua casa e, enfim, pela primeira vez, via reali­zado esse anseio. Ismênia foi aquela desgraça... O ingrato!... Mas para que recordar?
 

Os cumprimentos se repetiram.
 

— É um rapagão, o seu novo genro — disse um dos convidados novos.
 

O general tirou o pincenê, que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto o limpava, respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
 

— Estou muito contente.
 

Por aí, pôs o pincenê, endireitou o trancelim, e continuou:
 

— Creio que casei bem minha filha; rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.
 

O almirante acudiu:
 

— E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dois anos, primeiro escriturário do Tesouro, é coisa nunca vista.
 

— O Genelício não está no Tribunal de Contas; não passou? — perguntou Florêncio.
 

— Passou, mas é a mesma coisa — replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recém-casado.
 

De fato, Genelício tinha arranjado a transferência, e não fora só isso que o decidira a casar-se. Tendo escrito uma “Síntese de Contabilidade Pública Científica”, viu-se, sem saber como, cumu­lado de elogios pela “imprensa desta capital”. O ministro, atendendo ao mérito excepcional da obra, mandou-lhe dar dois contos de prêmio, tendo sido a edição feita à custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas páginas, tipo doze, escrito em estilo de ofício, com uma vasta documentação de decretos e portarias ocupando dois terços do livro.
 

A primeira frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico, fora até muito notada e gabada pelos críticos, não só pela novidade da ideia, como também pela beleza da expressão. Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa e a receita do Estado.”
 

Além do prêmio e da transferência, ele já tinha promessa de ser subdiretor, na primeira vaga. Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados novos, o major não pôde deixar de observar:
 

— Depois da militar, a melhor carreira é a da Fazenda, não acham?
 

— Sim... Bem entendido — fez o Doutor Florêncio.
 

— Eu não quero falar dos formados — apressou-se o major. — Esses...
 

Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer coisa, e foi soltando a primeira frase que lhe veio aos lábios:
 

— Quando se prospera, todas as profissões são boas.
 

— Não é assim tanto — obtemperou o almirante, alisando um dos favoritos. — Não é para desfazer das outras, mas a nossa, hein, Albernaz? hein, Inocêncio?
 

Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança, e depois replicou:
 

— É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro; como em Curupaiti, então...
 

— O senhor esteve lá, general? — perguntou o convidado amigo de Genelício.
 

— Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi. Você sabe, não é, Inocêncio?
 

— Se estive lá...
 

— Polidoro tinha ordem de atacar Sauce; Flores à esquerda, e nós caímos sobre os paraguaios. Mas os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
 

— Foi seu mitre — disse Inocêncio.
 

— Foi. Atacamos com fúria. Era ribombar de canhões que metia medo, bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!
 

— Quem venceu? — perguntou um dos convidados novos.
 

Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai excepcional.
 

— Foram os paraguaios, isso é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bela, mas tem as suas coisas...
 

— Isso não quer dizer nada. Também na passagem de Humaitá... — ia dizendo o almirante.
 

— O senhor estava a bordo?
 

— Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
 

Na sala de visitas, as danças continuavam com animação. Era raro que alguém viesse de dentro até onde eles estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens das suas preocupações belicosas. O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pací­ficos, contando batalhas em que não estiveram, e pugnas valorosas que não pelejaram.
 

Não há como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para apreciar as narrações de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por assim dizer espiritual das bata­lhas, dos encontros; os tiros são os de salva e, se matam, é coisa de somenos. A morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importância trágica: três mil mortos, só!!! De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a coisa ficava edulcorada, uma guerra bibliothèque rose, guerra de estampa popular, em que não aparecem a carniçaria, a bruta­lidade e a ferocidade normais.
 

Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como Engenheiro das Águas, e aqueles dois recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares — um honorário, talvez o menos pacífico dos três, o único que tivesse mesmo tomado parte em alguma coisa guerreira — quando Dona Maricota chegou, sempre diligente, ativa, dando movimento e vida à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ela vinha ofegante, e dirigiu-se ao marido:
 

— Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!
 

— Já vamos, Dona Maricota — disse alguém.
 

— Não — fez com rapidez a dona da casa — é já. Vamos, seu Caldas, seu Ricardo, os senhores!
 

E foi empurrando um a um pelo ombro.
 

— Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, seu Ricardo?
 

— Pois não, minha senhora. É uma ordem...
 

E foram. No caminho, o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
 

— Diga-me uma coisa, como vai o nosso amigo Quaresma?
 

— Vai bem.
 

— Tem-lhe escrito?
 

— Às vezes. Eu queria, general...
 

O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pincenê que começava a cair, e perguntou:
 

— O quê?
 

Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira hesitação, respondeu de um jato, com medo de perder as palavras:
 

— Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.
 

O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:
 

— Isso é difícil, mas você apareça lá na repartição amanhã.
 

E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:
 

— Estou com saudades dele; depois, tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...
 

— Vá lá amanhã.
 

Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:
 

— Vocês não vêm?
 

— Já vamos — fez o general.
 

E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
 

— Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isso! Eu, há bem quarenta anos que não pego em livro...
 

Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dois grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher, um espelho oval e alguns quadrinhos, e a de­co­ração estava completa. Da mobília, não se podia julgar; tinha sido retirada para dar mais espaço aos dançantes. A noiva e o noivo estavam no sofá, sentados, a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas, e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os “serenos”, podiam ver alguma coisa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
 

A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao pia­no, colocou a partitura e começou. Era uma romanza italia­na que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem-educada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.
 

O Doutor Florêncio, que ficara atrás do general, comentou:
 

— Tem uma bela voz essa moça. Quem é?
 

— É a filha do Lemos, o Doutor Lemos, da Higiene — respondeu o general.
 

— Canta muito bem.
 

— Está no último ano do Conservatório — observou ainda Albernaz.
 

Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o vilão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar Édipo Rei e falou com voz grossa:
 

— Senhoritas, senhores e senhoras. — Parou. Concertou a voz e continuou: — Vou cantar “Os teus braços”, modinha de minha composição; música e versos. É uma composição terna, decente, e de uma poesia exaltada. — Seus olhos, por aí, quase saíam das órbitas. Emendou: — Espero que nenhum ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui... to dê–li–cá–do. Bem...
 

A atenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemente, macio e longo, como soluço de onda; depois, houve uma parte rá­pida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.
 

Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. As palmas foram ininter­ruptas. O general abraçou-o, Genelício levantou-se e deu-lhe a mão. Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.
 

Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar. No corredor, chamavam-no: “Senhor Ricardo, Senhor Ricardo!” Voltou-se. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia uma cópia da modinha.
 

— Não se esqueça — dizia ela com meiguice — não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar.
 

A noiva de Cavalcanti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome perguntou:
 

— Que é, Dulce?
 

A outra explicou-se. Ela aceitou a incumbência e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
 

— Seu Ricardo, quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide?
 

— Depois de amanhã, espero eu.
 

— Vai lá?
 

— Vou.
 

— Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
 

E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.

​​CAPÍTULO III

Golias

No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do gene­ral recebera como marido o grave e giboso Genelício, glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga casara-se. A ceri­mônia correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva, e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.
 

Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquele ato, mas, aparen­temente, nenhuma vontade estranha à sua influíra para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo médico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal título um foral de nobreza, equivalente àqueles com que os autênticos fidalgos da Eu­ropa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo, e tudo ele acei­tara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”. Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo título, mas pela sua simulação de inteligência, de amor à ciência, de desmedidos sonhos de sábio. Tal imagem que dele fi­zera, durara instantes em Olga; depois foi a inércia da so­ciedade, a sua tirania, e a timidez natural da moça em romper, que a levaram ao casamento. Tanto mais que ela, de si para si, pensava que, se não fosse este, seria outro a ele igual, e o melhor era não adiar. Era por isso que ela não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o cons­trangimento de um comando fora dela.
 

Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não obstante as origens puramente europeias, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, ereto, com uma fisionomia irra­diante de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia dentro do vestido, dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. De resto, a sua beleza não era a grande beleza — aquela que nós exigimos das noivas ricas, segundo o mo­delo das estampas clássicas. No seu rosto, nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha, ou também dessa majestade de ópera lírica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda e própria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros que quase cobriam toda a cavidade orbitária fazia fulgurar o seu rosto móbil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malícia, e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
 

Ao contrário do costume, não saíram da cidade, e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
 

Quaresma não fora à festa; mandara o leitão e o peru da tra­dição e escrevera uma longa carta. O sítio empolgara-o; o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dois, era como se começasse a desertar da batalha. O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta.
 

A visita de Ricardo veio distraí-lo um pouco, sem desviá-lo, contudo, dos seus afazeres agrícolas. Passou um mês com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo o município o disputava e festejava.
 

O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilôme­tros adiante da casa de Quaresma, e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se pode chamar um trilho cheio de caldeirões, que subia e descia morros, e cortava planícies e rios em toscas pontes.
 

A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da ve­lha com a estrada de ferro. Elas se encontravam em “T”, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam delas; as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico. À esquerda da estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, onde ficava a Câmara Municipal. Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro estilo mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma natureza, das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média.
 

Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um deles tomou-o a seu cargo, e daí em pouco estava relacionado. Quando voltou para a casa do major, já tinha convite para o baile do Doutor Campos, presidente da Câmara, festa que teria lugar na quarta-feira próxima.
 

Chegara sábado e fora passear à vila no domingo. Tinha havido missa, e o trovador assistiu à saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, des­cendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o Doutor Campos. Era o médico do lugar; morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de “aranha” com a sua filha, Nair, assistir ao ofício religioso. O trovador e o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil.
 

À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria de sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem que o major ti­vesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele ins­trumento essencialmente nacional. As consequências desastrosas do seu requerimento em nada ti­nham abalado as suas convicções patrióticas. Continuavam as suas ideias profundamente arraigadas; tão somente ele as escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens. Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Doutor Campos, Presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã, até es­perava um dos cavalos do edil para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:

 

— Major, foi uma boa ideia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
 

— Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas coisas.
 

— Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha?
 

— Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra.
 

— Até aí não vou. Olhe, major, eu gosto muito de violão, mesmo; dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual; entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo, você vai ser deputado”, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfei­tamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vaza, major.
 

— Cada um tem as suas teorias.
 

— Decerto. Outra coisa, major; conhece o Doutor Campos?
 

— De nome.
 

— Sabe que ele é presidente da Câmara?
 

Quaresma olhou um instante para Ricardo, com uma ligeira desconfiança. O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou:
 

— Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa, e hoje vou a cavalo passear com ele.
 

— Fazes bem.
 

— Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui?
 

— Podes.
 

Um camarada do Doutor Campos, nesse instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dois empregados. Eram agora dois, pois, além do Anastácio, que não era bem um empregado, mas agregado, admitira Felizardo.
 

Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura. Havia uma grande profusão de luz, e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros. Esvoaçavam tiês-sangue, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento parece que tinham saído à luz, não somente para a fecundação vegetal, mas também para a beleza.
 

Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Feli­zar­do. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma aparência de fraqueza muscular, não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isso, era um tagarela incansável. De manhã, quando chegava, aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município.
 

O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte do sítio, que o capão invadira. Obtido ele, o major plantaria obra de meio alqueire, ou pouco mais, de milho e, nos intervalos, batatas inglesas, cultura nova em que depositava grandes esperan­ças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. Agora, o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele removia para longe, onde então queimaria em coivaras pequenas. Isso levava tempo, custa­va tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos, mas prometia dar um rendimento maior ao plantio.
 

Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem cante; ele falava, e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.
 

— Essa gente anda acesa por aí — disse Felizardo logo que o major chegou.
 

Certas vezes, Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa; raras, não. Anastácio era silencioso e grave. Nada dizia; trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hierática de uma pintura mural tebana.
 

O major perguntou a Felizardo:
 

— Que é que há, Felizardo?
 

O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos, e respondeu com a sua fala branda e chiante:
 

— Negócio de política... Seu Tenente Antonino quase briga ontem com seu dotô Campo.
 

— Onde?
 

— Na estação.
 

— Por quê?
 

— Negócio de partido. Pelo que ouvi, seu Tenente Antonino é pelo governadô, e seu dotô Campo é pelo senadô... Um sarcero, patrão!
 

— E você, por quem é?
 

Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a remover. Anastácio estava de pé, e considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:
 

— Eu? Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro sinhô.
 

— Eu sou como você, Felizardo.
 

— Quem me dera, meu sinhô. Inda trasantonte ouvi dizê que o patrão é amigo do marechá.
 

Afastou-se com o pau e, quando voltou, Quaresma indagou assustado:
 

— Quem disse?
 

— Não sei, não sinhô. Ouvi a modo de dizê lá na venda do espanhol, tanto assim que doutô Campo tá inchado que nem sapo com a sua amizade.
 

— Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo coisa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguém... Qual amigo!
 

— Quá! — fez Felizardo, com um riso largo e duro. — O patrão tá é varrendo a testada.
 

Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de ti­rar daquela cabeça infantil a ideia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano. “Conheci-o no meu emprego”, dizia o major; Feli­zardo sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.”
 

Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insi­nuações pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos; os entusiasmos dele, entretanto, junto à von­tade de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixan­do de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se, e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa, e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele.
 

Dona Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se à cabeceira; Quaresma à direita e, à esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador.
 

— Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo?
 

Não havia meio dela dizer “seu”. A sua educação de senhora, de outros tempos, não lhe permitia usar esse plebeísmo genera­lizado. Vira os pais — gente ainda fortemente portuguesa — di­zer “se­nhor”, e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
 

— Muito. Que lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui na roça é que se tem inspiração. — E ele tomava aquela atitude de arroubo, uma fisionomia de máscara de trágico grego, e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
 

— Tens composto muito, Ricardo? — indagou Quaresma.
 

— Hoje acabei uma modinha.
 

— Como se chama? — indagou Dona Adelaide.
 

— “Os lábios de Carola”.
 

— Bonito! Já fez a música?
 

Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Ricardo levava ago­ra o garfo à boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato, e respondeu com toda a convicção:
 

— A música, minha senhora, é a primeira coisa que faço.
 

— Hás de no-la cantar logo.
 

— Pois não, major.
 

Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. Fora essa a única concessão que, ao amigo, fize­ra Policarpo no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. Levava sempre um pedaço de pão, que esfarelava em migalhas no galinheiro para ver a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos ainda implumes, muito vivos e ávidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do peru, imponente, fazendo roda, a dar estouros presunçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia Anastácio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se dificilmente, e sole­nemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento, os bacorinhos grunhiam e, grunhindo, vinham com a mãe chafurdar-se na comida. A avidez daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos tinham uma longa doçura, bem humana, que os fazia simpáticos.
 

Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos esquecidos a contemplá-las, numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de árvore, e Quaresma olhava o céu alto enquanto Coração dos Outros contava qualquer história.
 

A tarde ia adiantada. A terra já começava a amolecer pelo fim daquele beijo ardente e demorado do sol. Os bambus suspiravam, as cigarras ciciavam, as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos, o major voltou-se.
 

— Padrinho!
 

— Olga!
 

Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram, fica­ram ainda a olhar um para o outro, com as mãos presas. E vieram aque­las estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: “Quando chegaste? Não esperava... É longe...” Ricardo olhava, embevecido com a ternura dos dois; Anastácio tirara o chapéu e olhava a “si­nha­zinha” com o seu terno e vazio olhar de africano. Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passou a vis­ta pelos quatro pontos, e Quaresma perguntou:
 

— Quedê teu marido?
 

— O doutor?... Está lá dentro.
 

O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Não lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito sem título, sem posição brilhante e sem fortuna. Ele não compreendia como o seu sogro, apesar de tudo um homem rico, de outra esfera, tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundária, e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário se desse, era justo; mas como estava a coisa, parecia que aba­lava toda a hierarquia da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado, e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas e satisfeitas.
 

Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar, possuía em si uma particular reverência, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difícil demons­trá-lo quando se viu diante do Doutor Armando Borges, de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia. Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração, e o doutor, gozando aquele seu sobre-humano prestígio, ia conversando pausadamente, sentencio­samente, dogmaticamente; e, à proporção que conversava, talvez para que o efeito não se dissipasse, virava com a mão direita o grande anelão simbólico, o talismã que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de marquês.
 

Conversaram muito. O jovem par contou a agitação política do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; Dona Adelaide, a epopeia da mudança, móveis quebrados, objetos partidos. Pela meia-noite, todos foram dormir com uma alegria particular, enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hino à transcendente beleza do céu negro, profundo e estrelado.
 

Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o título. Era O Município, órgão local, hebdomadário, filiado ao partido situacio­nista. O doutor se havia afastado; ele aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Pôs o pincenê, recostou-se na cadeira de balanço e descobriu o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele — “verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranquilidade”.
 

Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:

“POLÍTICA DE CURUZU
Quaresma, meu bem, Quaresma!
Quaresma do coração!
Deixa as batatas em paz
Deixa em paz o feijão.

Jeito não tens para isso
Quaresma, meu cacumbi!
Volta à mania antiga
De redigir em tupi.

Olho vivo.”

O major ficou estuporado. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava, não achava o motivo e o fundo de seme­lhante ataque. A irmã aproximara-se, acompanhada da afilha­da. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo:

 

— Lê isto, Adelaide.
 

A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Ela tinha aquela ampla maternidade das sol­tei­ronas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros. Enquanto ela lia, Quaresma dizia:
 

— Mas que fiz eu? que tenho com a política? — E coçava os cabelos já bastante encanecidos.
 

Dona Adelaide disse então docemente:
 

— Sossega, Policarpo. Por isso só?... Ora!
 

A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho:
 

— O senhor se meteu algum dia nessa política daqui?
 

— Eu nunca!... Vou até declarar que...
 

— Está doido! — exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
 

— Isso seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
 

O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça.
 

— Que há, major? — indagou o troveiro.
 

As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo, depois, contou o que ouvira na vila. Acreditavam to­dos que o major viera para ali no intuito de fazer política, tanto assim que dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuía remédios homeopáticos... Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo.
 

— E não desmentiste? — perguntou Quaresma.
 

Ricardo afirmou que sim, mas o escrivão não quisera acreditar nele, e reiterara os seus propósitos de ataque.
 

O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu gênio, incubou nos primeiros tempos a impres­são e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não de­monstrou preocupação.
Olga e o marido passaram no Sossego cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já parecia cansado. Os pas­seios não eram muitos. Em geral, os nossos lugarejos célebres, assim como na Europa, cada aldeia tem a sua curiosidade histórica. Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas léguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Doutor Campos já travara relações com o major e, graças a ele, houve cavalos e silhão que também permitisse à moça ir à cachoeira.

 

Foram de manhã, o presidente da Câmara, o doutor, sua mu­lher e a filha de Campos. O lugar não era feio. Uma pequena ca­choei­ra, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em três partes pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia na queda, como que se enrodilhava, e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura, e como que toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. O sol coava-se dificilmente, e vinha faiscar sobre a água ou sobre as pedras em pequenas manchas redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos, eram como as incrustações daquele salão fantástico. Olga pôde ver tudo isso bem à vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do presidente era de um silêncio de túmulo, e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre novidades medicinais: “Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético?”
 

O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido, da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros ideia de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham te­lhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele sopapo, que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Por que ao redor dessas casas não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café, e um milharal aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola.
 

Não podia ser preguiça só, ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar rela­tivamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda a parte, os casais, as famílias, as tribos plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...
 

Pensou em ser homem. Se o fosse, passaria ali, e em outras localidades, meses e anos; indagaria, observaria, e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyère, que tinha face humana e voz articulada...
 

Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho, aproveitou a ocasião para interrogar a respeito o tagarela Feli­zardo.
 

A faina do roçado ia quase no fim; o grande trato da terra estava quase inteiramente limpo, e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio. Olga encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado as madeiras mais grossas. Anastácio estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caídas. Ele lhe falou:
 

— Bons-dias, sá dona.
 

— Então, trabalha-se muito, Felizardo?
 

— O que se pode.
 

— Estive ontem no Carico, bonito lugar... Onde é que você mora, Felizardo?
 

— É doutra banda, na estrada da vila.
 

— É grande o sítio de você?
 

— Tem alguma terra, sim, senhora sá dona.
 

— Você, por que não planta para você?
 

— Quá, sá dona! O que é que a gente come?
 

— O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
 

— Sá dona tá pensando uma coisa, e a coisa é outra. Enquanto planta cresce, e então? Quá, sá dona, não é assim.
 

Deu uma machadada; o tronco escapou; colocou-o melhor no picador e, antes de desferir o machado, ainda disse:
 

— Terra não é nossa... E frumiga?... Nós não tem ferramenta... isso é bom pra italiano ou alamão, que o governo dá tudo... Go­verno não gosta de nós...
 

Desferiu o machado, firme, seguro, e o rugoso tronco se abriu em duas partes quase iguais, de um claro amarelado, onde o cerne escuro começava a aparecer.
 

Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do governo era só para os nacionais; para os outros todos, os auxílios e facilidades, não contando com a sua anterior educação e apoio dos patrícios. E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaçapamento, esses latifúndios inúteis e improdutivos?
 

A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no pro­blema. Foi vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava. Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele perdera um pouco da sua morgue; havia mesmo ocasião em que era até natural. Quando ela chegou, o padrinho exclamava:
 

— Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal ideia? Pois se temos as terras mais férteis do mundo!
 

— Mas se esgotam, major — observou o doutor.
 

Dona Adelaide, calada, seguia com atenção o crochet que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometeu-se na conversa:
 

— Que zanga é essa, padrinho?
 

— É teu marido, que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isso é até uma injúria!
 

— Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor — aduziu o doutor — ensaiava uns fosfatos...
 

— Decerto, major — obtemperou Ricardo. — Eu, quando comecei a tocar violão, não queria aprender música... Qual música! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje vejo que é preciso... É assim — resumia ele.
 

Todos se entreolharam, exceto Quaresma, que logo disse com toda a força da alma:
 

— Senhor doutor, o Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais bem-dotado, e as suas terras não precisam empréstimos para dar sustento ao homem. Fique certo!
 

— Há mais férteis, major — avançou o doutor.
 

— Onde?
 

— Na Europa.
 

— Na Europa!
 

— Sim, na Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
 

O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
 

— O senhor não é patriota! Esses moços...
 

O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas conside­rações sobre o violão. À noite, o menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios de Carola.” Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Doutor Campos, mas ninguém aludiu a isso. Ouviram-no com interesse, e ele foi muito aclamado. Olga tocou o velho piano de Dona Adelaide e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.
 

Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opu­lências do Brasil. A casa estava em silêncio; do lado de fora, não havia a mínima bulha. Os sapos tinham suspendido um ins­tante a sua orquestra noturna. Quaresma lia, e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordi­nário! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu aposento, vinha um ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou atenção. Os sapos recomeçaram o seu hino. Havia vo­zes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia à outra; num dado instante, todas se juntaram num uníssono sustentado. Suspenderam um instante a música. O major apurou o ouvido; o ruído continuava. Que era? Eram uns estalos tênues; parecia que quebravam gravetos, que deixavam outros cair ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu uma martelada, e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito, Quaresma pôde ler umas cinco páginas. Os batráquios pararam, a bulha continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal e foi à dependência da casa donde partia o ruído, assim mesmo como estava, em camisa de dormir. Abriu a porta, nada viu. Ia procurar nos cantos quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quase gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à sua pele magra.
 

Descobriu a origem da bulha: eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes ti­nham sido deixados abertos por inadvertência. O chão estava negro e, carregadas com os grãos, elas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea.
 

Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares, e cada vez mais o exército aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não pôde aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cair. Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele ínfimo inimigo que, talvez, nem mesmo à luz ra­diante do sol, visse distintamente...

CAPÍTULO IV

“Peço energia, sigo já”

Dona Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro anos mais que ele. Era uma bela velha, com um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice, uma espes­sa cabeleira já inteiramente amarelada, e um olhar tranquilo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de inteligência lúcida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; contudo, nunca houve entre eles uma separação profunda, nem tampouco uma penetração perfeita. Ela não entendia nem procurava entender a substância do irmão, e sobre ele, em nada reagia àquele ser metódico, ordenado e organizado, de ideias simples, médias e claras. Ela já atingira os cinquenta, e ele para lá marchava, mas ambos tinham ar saudável, poucos achaques, e prometiam ainda muita vida. A existência calma, doce e regrada que tinham levado até ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta, e ela nunca tivera qualquer.
 

Para Dona Adelaide, a vida era coisa simples, era viver, isso é, ter uma casa, jantar e almoço, vestuário, tudo modesto, médio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara príncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido. Se não casou, foi porque não sentiu necessidade disso; o sexo não lhe pesava e, de alma e corpo, ela sempre se sentiu completa.
 

O seu aspecto tranquilo e o sossego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam, na­quele interior familiar, a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão. Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na aparência, até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os seus hábitos, gestos e atitudes, logo se havia de ver que o sossego e a placidez não moravam no seu pensamento. Ocasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe, o horizonte, perdido em cisma; ou­tras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão, demorava-se assim um ins­tante, coçando uma mão com a outra, dava depois um muxo­xo, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma frase.
 

Anastácio, em tais instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Feli­zardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca da venda; e o trabalho marchava.
 

Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia, eles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ela superintendendo o serviço doméstico.
 

As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do major, pelo simples motivo de que estavam longe. Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e, da afilhada e do compadre, as últimas cartas que recebera da­tavam de uma semana, não vendo aquela há tanto tempo quanto ao trovador, e aquele desde quase um ano, isso é, o tempo em que estava no Sossego.
 

Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. Os seus hábitos não foram mudados, e a sua atividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia. O higrômetro, o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados, nem as observações registradas num caderno. Dera-se mal com eles. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas deles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia, baseada em combinações dos seus dados, saía errada. Se espe­ra­va tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha seca. Assim perdeu muita semente, e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos, com aquele grosso e cavernoso sorriso de troglodita:
 

— Quá patrão! Isso de chuva vem quando Deus qué.
 

O barômetro aneroide continuava a um canto, a dançar o seu ponteiro sem ser percebido; o termômetro de máxima e mínima, legítimo Casella, jazia pendurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves; só o anemômetro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava.
 

Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe ti­nham movido, embora tendo deixado de ser pública, lavrava ocultamente. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de vez, mas como? Se não o acusavam, se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um combate com sombras, com aparências, que seria ridículo aceitar.
 

De resto, a situação geral que o cercava, aquela miséria da po­pulação campestre que nunca suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade, encaminhavam sua alma de pa­trio­ta meditativo a preocupações angustiosas. Via o major, com tristeza, não existir naquela gente humilde sentimento de soli­dariedade, de apoio mútuo. Não se associavam para coisa alguma, e viviam separados, isolados, em famílias geralmente irre­gulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, ti­nham bem perto o exemplo dos portugueses que, unidos aos seus e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importância, lucrar e viver. Mesmo o ve­lho costume do mutirão já se havia apagado. Como remediar isso? Quaresma desesperava...
 

A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida; e estúpido ou de má fé era o governo, que os andava importando aos milhares, sem se preocupar com os que já existiam. Era como se, no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado, fossem introduzidas mais três, para aumentar o estrume!...
 

Pelo seu caso, ele via bem as dificuldades, os óbices de toda a sorte que havia, para fazer a terra produtiva e remunerada. Um fato veio mostrar-lhe com eloquência um dos aspectos da questão. Vencendo a erva-de-passarinho, os maltratos e o abando­no de tantos anos, os abacateiros de suas terras conseguiram frutificar, fracamen­te é verdade, mas de forma superior às necessidades de sua casa. A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou ou­tro que os queria comprar por preços ínfimos. Com decisão, foi ao Rio procurar comprador. Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo no Mercado, o rei das frutas. Lá foi.
 

— Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
 

— Entretanto — disse Quaresma — ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia cinco mil-réis.
 

— Em porção, o senhor sabe que... É isso... Enfim, se quer mande-os...
 

Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôs uma das mãos na cava do colete e, quase de costas para o major:
 

— É preciso vê-los... O tamanho influi...
 

Quaresma os mandou e, quando lhe veio o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de ganhar uma grande bata­lha imortal. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas, leu-lhes bem o número e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa, e muito tempo levou sem ânimo de trocá-las.
 

Para avaliar o lucro, descontou o frete de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salário dos auxiliares e, após esse cálculo, que não era laborioso, teve a evidência de que ganhara mil e quinhentos réis, nem mais nem menos. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com que se compra uma dúzia. Assim mesmo, o seu orgulho não diminuiu, e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
 

Foi portanto com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Para o ano, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fruteiras. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes plantações; contratou um outro empregado para ajudá-lo no tra­ta­mento das velhas flores frutíferas. Foi, pois, com o Mané Can­deeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores, os galhos mortos, e aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. Era árduo e difícil o trabalho. Tinham às vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma, ou o camarada.
 

Mané Candeeiro falava pouco — a não ser que se tratasse de coi­sas de caça —, mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingênuas, onde, com surpresa, o major não via entrar a fauna, a flora locais, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente sensuais e muito ternas, melosas até; por acaso, lá vinha uma em que um pássaro local entrava, então o major escutava:

Eu vou dar a despedida
Como deu o bacurau,
Uma perna no caminho,
Outra no galho de pau.


Esse bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a interes­sar-se pelo espetáculo ambiente, já se emocionava com ele, e a nossa raça deitava, portanto, raízes na grande terra que habitava. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de São Cristóvão.
Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso, pois todas aquelas caçadas de caititus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poético, principalmente no desafio: o moleque é bom! Ele era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amolecidas pelo sangue africano. Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços, mas, sinceramente, não a encontrou.
 

Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele velho sítio abandonado há quase dez anos. Quando o serviço ficou pronto, ele viu com tristeza aquelas velhas árvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Pareciam sofrer, e ele se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos, escravos talvez, banzeiros e desesperançados!... Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse, e o renascimento das árvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto.
 

De manhã, esvoaçavam os tiés-vermelhos, com o seu pio pobre, espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter nas­cido para os chapéus das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando no chão capinado; pelo correr do dia, eram os sanhaços a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de coleiros; e de tarde, como que todos eles se reuniam, piando, cantando, chilreando pelas altas manguei­ras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
 

Não durou muito essa alegria. Um inimigo apareceu inopinadamente, com a rapidez ousadíssima de um general consumado. Até ali ele se mostrara tímido, parecia que somente mandava esclarecedores.
 

Desde aquele ataque às provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas reapareceram; mas, naquela manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem ação, e as lágrimas lhe vieram aos olhos. O milho que já tinha repontado muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés. Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente”, disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho com uma rapacidade turca...
 

Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo, descobriu as aberturas principais do formigueiro e, em cada uma, queimou o formicida mortal. Pas­sa­ram-se dias; os inimigos pareciam derrotados, mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... Acendeu um fósforo e o que viu, meu Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos troncos e pelos galhos acima, e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas, transitadas e vi­giadas, a população de uma grande cidade; umas subiam, outras desciam; nada de atropelos, de confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima, umas cortavam as folhas pelo pecíolo; cá embaixo, outras serravam-nas em pedaços e, afinal, eram carregadas por terceiras, levantando-as acima da descomunal cabeça, em longas fileiras, pelo trilho limpo, aberto entre a erva rasteira.
 

Houve um instante de desânimo na alma do major. Não tinha contato com aquele obstáculo nem o supusera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz, com a qual se tinha de haver. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas, elas nos expulsariam. O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras, mas o sentido era, e ficou admirado que só agora ela lhe ocorresse.
 

No dia seguinte, tinha recobrado o ânimo. Comprou ingre­dientes e ei-lo, mais o Mané Candeeiro, a abrir picadas, a fazer esforços de sagacidade para descobrir os redutos centrais, as “pa­nelas” dos insetos terríveis. Então, era como se os bombardeassem; o sulfeto queimava, estourava em tiros seguidos, mortíferos, letais! E daí em diante, foi uma batalha sem tréguas. Se aparecia uma aber­tura, um “olho”, logo se lhe aplicava o formicida, pois, do contrário, nenhuma plantação era possível, tanto mais que extintos os das suas terras, não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar cunículos para o seu terreno.
 

Era um suplício, um castigo, uma espécie de vigilância a di­que holandês, e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um acordo entre os cultivadores, podia levar a efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva, que a geada, que a seca; sempre presente, inverno ou verão, ou­to­no ou primavera.
 

Não obstante essa luta diária, o major não desanimou, e pôde colher alguns produtos das plantações que tinha feito. Se, por oca­sião das frutas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ela foi quando viu partir para a estação, em sucessivas carretas, as abóboras, os aipins, as batatas-doces, em cestos cobertos com sacos cosidos. Os frutos, em parte, eram de outras mãos; as árvores não tinham sido plantadas por ele; mas aquilo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu trabalho! Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a glória e para a vitória.
 

Recebeu o dinheiro dias depois, contou-o e esteve dedu­zindo os lucros. Não foi à roça nesse dia; o trabalho de guarda-livros rou­bou o de cultivador. A sua atenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio-dia, pôde dizer à irmã:
 

— Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
 

— Não. Menor do que o dos abacates?
 

— Um pouco mais.
 

— Então... Quanto?
 

— Dois mil quinhentos e setenta réis — respondeu Quaresma, destacando sílaba por sílaba.
 

— O quê?
 

— Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dois mil e quinhentos.
 

Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois, levantando o olhar:
 

— Homem, Policarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
 

— Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras feracíssimas...
 

— É isso... Queres sempre ser a abelha-mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?... Vê lá se fazem! Histórias... Metem-se no café, que tem todas as proteções...
 

— Mas faço eu.
 

A irmã prestou mais atenção à costura; Policarpo levantou-se, foi até a janela que dava para o galinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Ele concertou o pincenê, esteve olhando e, de lá, falou:
 

— Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?...
 

A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até à janela e ve­rificou com a vista:
 

— É... É já a segunda que morre hoje.
 

Após essa leve conversa, Quaresma voltou à sua sala de estudos. Meditava grandes reformas agrícolas. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. Tinha já em mente uma charrua dupla, um capinador mecânico, um semeador, um destocador; grades, tudo americano, de aço, dando o rendimento efetivo de vinte homens. Até então, não quisera essas inovações; as terras mais ricas do mundo não precisavam desses processos, que lhe pareciam arti­ficiais, para produzir; estava porém agora disposto a empregá-los como experiência. Aos adubos, entretanto, o seu espírito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos, fosfatos ou mesmo estrume comum numa terra brasileira... Uma injúria! Quando se convencesse de que eram necessários, parecia-lhe que todo o seu sistema de ideias ia por terra, e os móveis de sua vida desapareceriam.
 

Estava assim a escolher arados e outros Planets, Bajacs e Brabants de vários feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a visita do Doutor Campos. O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão e o seu grande corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco; tinha os olhos castanhos, quase à flor do rosto; uma testa média e reta; o nariz, malfeito. Um tanto tri­gueiro, cabelos corridos e já grisalhos, era o que se chama por aí um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo.
 

Não nascera em Curuzu, era da Bahia ou de Sergipe; habitava, porém, o lugar há mais de vinte anos, onde casara e prosperara graças ao dote da mulher e à sua atividade clínica. Com esta, não gastava grande energia mental, tendo de cor uma meia dúzia de receitas; ele desde muito conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário. Presidente da Câmara, era das pessoas mais consideráveis de Curuzu, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua afabilidade e simplicidade.
 

— Ora viva, major! Como vai isso por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais.
 

Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade, mas contente com a alegria comunicativa do doutor. Ele conti­nuava a falar com desembaraço e naturalidade:
 

— Sabe o que me traz aqui, major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obséquio seu.
 

O major não se espantou; simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos.
 

— Como o major sabe...
 

Agora a sua voz era doce, flexível, sutil; as palavras caíam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se, coleavam-se:
 

— Como o major sabe, as eleições se devem realizar por esses dias. A vitória é nossa. Todas as mesas estão conosco, exceto uma... Aí mesmo, se o major quiser...
 

— Mas, como? se eu não sou eleitor, não me meto, nem quero meter-me em política? — perguntou Quaresma ingenuamente.
 

— Exatamente por isso — disse o doutor com voz forte; e em seguida brandamente: — a seção funciona na sua vizinhança, é ali, na escola; se...
 

— E daí?
 

— Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o major quer responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?
 

Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente, firmemente:
 

— Absolutamente não.
 

O doutor não se zangou. Pôs mais unção e macieza na voz, aduziu argumentos: que era para o partido, o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexível; disse que não, que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas, que não tinha partido e, mesmo que tivesse, não iria afirmar uma coisa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade.
 

Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre coisas banais e despediu-se com o ar amável, com a jovialidade mais sua que era possível.
 

Isto se passou na terça-feira, naquele dia de luz fosca e irritan­te. À tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o major foi surpreendido com a vi­sita de um sujeito com um uniforme velho e lamentável, portador de um papel oficial para ele, proprietário do Sossego, conforme mesmo disse o tal homem fardado.
 

Em virtude das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo Quaresma, proprietário do sítio Sossego, era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e ca­pinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas.
 

O major ficou um tempo pensando. Julgava impossível uma tal intimação. Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assinatura do Doutor Campos. Era certo... Mas que absurda intimação essa de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros, pois seu sítio dava de frente para um caminho e, de um dos lados, acompanhava outro na extensão de oitocentos metros — era possível!? A antiga corveia!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio.
 

Consultando a irmã, ela lhe aconselhou que falasse ao Doutor Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com ele dias antes.
 

— Mas és tolo, Policarpo. Foi ele mesmo...
 

A luz se lhe fez no pensamento... Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas mãos de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as.
 

Pelos seus olhos passaram, num instante, aquelas faces amare­ladas e chupadas que se encostavam nos portais das vendas pregui­çosamente; viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas, de olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aque­las terras abandonadas, improdutivas, entregues às ervas e inse­tos daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo e trabalhador, sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos — esse quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relâmpago, e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que sua afilhada lhe mandara.
 

Vinha viva e alegre. Contava pequenas histórias de sua vida, a viagem próxima do papai à Europa, o desespero do marido no dia em que saiu sem anel; pedia notícias do padrinho, de Dona Ade­laide e, sem desrespeito, recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da Duquesa. A Duquesa era uma grande pata branca, de penas alvas e macias ao olhar, que, pela lentidão e majestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse apelido nobre.
 

O animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos, levara a Duquesa também. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas, depois o resto do corpo. Três dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico colado ao chão, atacada pelas formigas, o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na sua última hora. Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa naquele instante penetrava em nós, e sentíamos-lhe o sofrimento, a agonia e a dor.
 

O galinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou galinhas, perus, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos da me­tade. E não havia quem soubesse curar. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam tantos sábios, não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele considerável prejuízo.
 

Esses contratempos, essas contrariedades, abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros meses; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos. Adquiriu compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos catálogos. Uma tarde, porém, estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado, quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial. Ele se lembrou da intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incomodou muito.
 

Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da coletoria, cujo escrivão, Antonino Dutra, conforme estava no papel, intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar quinhentos mil-réis de multa, por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos. Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as coisas gerais, levado pelo seu patriot