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Por que dar atualidade ao texto de César?

Em meio a tantas guerras e num momento de extrema polarização política, faz sentido (re)publicar os comentários de César sobre as Guerras Gálicas? Afinal, as campanhas do famoso general romano nos territórios que hoje pertencem a França, Bélgica e Suíça foram em grande parte responsáveis pela aniquilação de muitos dos povos que ali habitavam no primeiro século antes de Cristo – um verdadeiro "crime contra a humanidade", segundo Plínio, o Velho.


Distribuição aproximada dos povos da Gália (e vizinhos) por volta de 56 a.C. A área hachurada corresponde aos territórios sob controle romano então.


Embora não existam cifras precisas, estima-se que as campanhas de César tenham sido responsáveis pela morte de cerca de um milhão de gauleses ao longo de quase uma década de guerras com os romanos. Mas será que estes povos continuariam a existir se não fosse por César? Afinal, os gauleses não eram nem de longe um povo pacífico. Ao contrário, vangloriavam-se de sua bravura militar, assim como os romanos, e muitos tinham por hábito pregar as cabeças decepadas de seus inimigos na porta de suas casas. Eles lutavam entre si com frequência e costumavam subjugar os vencidos a atrocidades, sem piedade, muitas vezes buscando estabelecer a própria hegemonia naquele território.


Seja como for, Roma é, sem dúvida, a grande responsável pela configuração atual da nossa civilização dita "ocidental". Segundo a historiadora Mary Beard, em seu excelente livro SPQR, a campanha de César "lançou os alicerces da geografia política da moderna Europa"(1).


Os "comentários" de César a respeito da Gália certamente não constituem um documento neutro, pois tratam-se da versão editada de seus despachos anuais a Roma a partir da linha de frente, cuidadosamente elaborados para justificar suas condutas e alardear seu gênio militar como propaganda política a serviço dos próprios anseios em relação à República. Mas, gostemos ou não, seu texto figura como um dos únicos relatos testemunhais de uma guerra antiga a sobreviver até os dias de hoje. Segundo Beard, "são também um dos primeiros exemplos do que poderíamos chamar de etnografia imperial"(2), descrevendo costumes estrangeiros, tais como certos rituais religiosos dos druidas, que, embora elaborados a partir de uma visão extremamente "romana" do mundo, constituem hoje "a referência básica para as discussões modernas da cultura pré-romana do norte da Europa"(3).


A importância desses textos para os interessados em História – particularmente a história da Roma Antiga – é portanto evidente. Mas o estilo dinâmico e objetivo da narrativa de César também constitui uma excelente leitura para os amantes da ação e da aventura. Além disso, a engenhosidade militar de César serve de modelo para os que vêm em livros como A arte da guerra, de Sun Tzu, um tema de interesse, pois descreve com riqueza suas negociações com embaixadas inimigas, táticas e estratégias de combate, além dos cuidados com ações de inteligência e de logística para o abastecimento das tropas.


Nossa publicação semanal, em fascículos, dos texto de César procura dar atualidade a esses relatos, priorizando o entendimento e a fruição do texto original, considerando sua importância e qualidade. Nossa motivação foi, em grande parte, a dificuldade em encontrar boas edições contemporâneas em português, principalmente em formato físico, já que maioria das que circulam no Brasil são em PDF e simplesmente reproduzem a tradução de Francisco Sotero dos Reis, feita no tempo de D. Pedro II para o estudo obrigatório do latim nos colégios de então. Esses trabalhos, mesmo com a ortografia atualizada segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, são leitura indigesta e de difícil entendimento. Isso quando não eivados de erros e inconsistências.


A tradução de Francisco Sotero é fundamento e nos serviu de base para os textos que reproduzimos em nosso blog. Nossa tradução do latim para o português, no entanto, foi feita com o uso de ferramentas de Inteligência Artificial. O resultado desse trabalho foi, então, confrontado com a tradução de Sotero, que serviu de guia para correções e alterações na redação final. Eventualmente, também nos valemos de pesquisas auxiliares em livros de História e na internet. O resultado busca resgatar o caráter objetivo e dinâmico da narrativa original de César que, segundo o próprio Sotero, é "sucinta, bem delineada e ainda mais bem escrita", rivalizando em "pureza de linguagem e clareza com os grande modelos [literários] da Grécia e de Roma"(4).


_______________

(1): Beard, Mary. SPQR: Uma história da Roma antiga. Trad. Luis Reyes Gil. 3 ed. São Paulo: Planeta, 2023, p. 280.

(2) e (3): Ibid., p. 279.

(4) "Introdução do tradutor", de Francisco Sotero dos Reis, na abertura de seu Comentários de Júlio César à Guerra da Gália, dedicado a D. Pedro II.

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