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Baskerville, a ponte entre a tipografia clássica e a moderna

Atualizado: 28 de jun. de 2023

Baskerville é considerada uma fonte tipográfica de transição entre os modelos clássicos (“Old Style”) e os modernos. Ela foi criada no século 18, em pleno Iluminismo, quando a Europa era impactada pela Revolução Industrial. Nesse período, as artes visuais e a arquitetura afastavam-se dos excessos decorativos e do desenho assimétrico, característicos do Rococó, encaminhando-se cada vez mais para o Neoclássico, que valorizava a simplicidade e o equilíbrio. Ao mesmo tempo, descobertas científicas promoviam mudanças significativas no comércio, na indústria e na sociedade como um todo. Já no contexto da tipografia, Baskerville figura como uma ponte entre a elegância dos tipos clássicos e a praticidade dos modernos.


Retrato de John Baskerville, por James Millar, 1774. Óleo sobre tela, Birmingham Museums Trust.


Criada em 1754, em Birmingham, na Inglaterra, Baskerville traz o nome do seu criador, John Baskerville, um rico negociante de objetos de laca, perfeccionista e aficionado pelo desenho das letras. A fonte é conhecida pelo contorno nítido, o alto contraste e as proporções elegantes. Seu desenho é baseado nos tipos clássicos da família Caslon, que Baskerville se propôs a aperfeiçoar, como parte de um ambicioso projeto de obter a máxima qualidade na impressão de livros.


A intenção de Baskerville era fazer da Caslon uma tipografia ainda mais nítida e, para tanto, ele aumentou o contraste das letras, tornou suas serifas mais finas e pontiagudas e mudou o eixo das formas arredondadas para uma posição mais vertical, aproximando-as ao formato circular. Como resultado, obteve tipos extremamente regulares, legíveis e consistentes.


Família Baskerville, em tipos romanos e itálicos.


Como perseguia o ideal de simplicidade e sutileza, o único “floreio” a que Baskerville se permitiu foi adicionar hastes onduladas em algumas letras, como no Q maiúsculo de seus tipos romanos ou no T maiúsculo do itálico, agregando assim alguns elementos inspirados em sua própria caligrafia, origem de sua paixão pelo design das letras.


Em um momento em que as publicações na Inglaterra eram impressas com baixa qualidade e tipografia conservadora, Baskerville se empenhou em oferecer livros com uma qualidade jamais vista. Para isso, além de trabalhar no desenho de suas letras, valeu-se do manuseio cuidadoso na impressão, agregou inovações tecnológicas em suas prensas, além de trabalhar no desenvolvimento de tintas de altíssima qualidade e papeis ultralisos que, depois de impressos, conferiam um acabamento esmaltado, nítido e brilhante ao trabalho. Mesmo assim, a fonte não obteve o sucesso almejado pelo seu criador, pelo menos não em sua própria época. Afinal, o público do século 18 estava tão acostumado com os tipos clássicos, que as mudanças propostas por Baskerville lhe pareceram muito drásticas, levando seus detratores a se queixar do estilo excessivamente “duro” e a afirmar que chegava a “ferir os olhos”.


Apesar de Baskerville não ter testemunhado em vida o sucesso de sua família tipográfica, ela exerceu enorme influência na Europa depois que sua viúva os vendeu e eles passaram a circular entre as fundições francesas. A admiração pela tipologia inglesa, então, espalhou-se pela França e pela Itália, e os tipos ultracontrastados de Baskerville inspiraram o surgimento das famílias modernas, como a Didot e a Bodoni. Quando estas foram lançadas, porém, acabaram por contribuir com o açodamento da Baskerville, tornando-a praticamente obsoleta até 1917, quando o americano Bruce Rogers a adotou na gráfica da Universidade de Harvard.


Elegante, Baskerville se sobressai nas composições puramente tipográficas, destacando-se como uma das mais populares e clássicas famílias da atualidade. Com refinada beleza, é excelente para o design de livros, e suas formas precisas e contrastadas lhe conferem extrema legibilidade. Baskerville é, portanto, uma legítima representante da tipografia racional e neoclássica do século 18.



John Baskerville (1706-1775)


John Baskerville nasceu no dia 28 de janeiro de 1706, em Wolverley, Worcestershire, Inglaterra, e faleceu em 8 de janeiro de 1775, em Birmingham, Warwickshire, também na Inglaterra. Iniciou sua carreira ainda jovem, como professor de caligrafia, e destacou-se como entalhador de lápides, antes de abrir um negócio de lacas e vernizes que fez dele um homem rico. Então, por volta de 1750, iniciou experiências com a fabricação de papel, a elaboração de tintas, a fundição de tipos e a impressão de livros – um hobby que o fascinava, embora tenha se tornado cada vez mais dispendioso para ele ao longo da vida.


Em 1754, com avançados 48 anos de idade, John Baskerville desenhou o seu primeiro conjunto de tipos, cujas punções foram gravadas por John Handy, artesão com o qual trabalhou por 28 anos. Membro da Royal Society of Arts, dirigiu Handy na elaboração de diversas famílias tipográficas, todas similares, o que reflete sua busca incansável pela perfeição no detalhe do desenho das letras.


Em 1557, Baskerville publicou uma memorável edição da Bucólicas, do poeta Virgílio, utilizando suas próprias fontes tipográficas. Levou três anos para finalizar esse trabalho, mas seu impacto foi tão grande que Baskerville foi indicado como impressor para a Universidade de Cambridge no ano seguinte. Em Cambridge, embora se considerasse um “ateu convicto”, imprimiu a mais esplêndida edição inglesa da Bíblia, no formato in folio, em 1763. Mesmo assim, seu trabalho foi criticado por competidores invejosos e caiu em desgraça.


O valor da tipografia de Baskerville só veio a ser amplamente reconhecido a partir do início do século 20, quando muitas famílias foram criadas com base em seus tipos e nomeadas como “Baskerville”. O responsável pelo resgate dessa fonte foi o tipógrafo americano Bruce Rogers, que descobriu um exemplar composto por Baskerville em uma livraria em Cambridge, em 1917. Depois, quando se tornou consultor da gráfica da Universidade de Harvard, Rogers recomendou que esses tipos fossem fundidos a partir das matrizes originais do tipógrafo. A partir de então, outras famílias foram inspiradas no desenho de Baskerville, como a de Zuzana Licko, que desenvolveu uma família muito popular para a Emigre Fonts chamada Mrs. Eaves, em homenagem à esposa de John Baskerville, Sarah Eaves.


Baskerville também foi responsável por significativas inovações no processo de impressão tipográfica e da produção de insumos pra essa indústria. Entre outras coisas, trabalhou com James Whatman no desenvolvimento de papeis mais lisos, além de ser pioneiro em um estilo tipográfico completamente novo, que se valia de margens generosas e entrelinhas abertas em seu layout.


O reconhecimento, embora tardio, foi pleno. Além da universalização do uso e da profusão de famílias tipográficas inspiradas na Baskerville, em 2013 foi erigida uma escultura em sua homenagem, criada pelo artista local David Patten e chamada Industry and genius. Essa escultura está localizada em frete à casa do tipógrafo, na Centenary Square, em Birmingham, Inglaterra.



Obsessão pela qualidade


Como dito, a família Baskerville foi concebida como parte de um ambicioso projeto de seu criador, de produzir livros com a mais alta qualidade possível. Portanto, ela é fruto da permanente experimentação desse tipógrafo, tanto no desenho das letras, quanto no desenvolvimento das tecnologias de impressão.


Baskerville criou o seu próprio método de trabalho, obtendo tintas mais escuras e papeis mais alvos, lisos e brilhantes. Ele próprio desenvolveu uma tinta de cor preta intensa, por meio de um demorado processo que envolvia a fervura do óleo de linhaça. Era preciso esperar meses para que o material pudesse ser finalmente moído para o uso. Suas pesquisas também o levaram ao desenvolvimento de padrões mais elevados para as prensas tipográficas e para a fabricação de papeis.


Em conjunto com o mestre papeleiro James Whatman, Baskerville introduziu melhoramentos que tornaram seu produto ainda mais liso e brilhante. E olha que o papel de Whatman já era considerado um dos mais sofisticados da Inglaterra no século 18. Ainda assim, como Baskerville considerava que as prensas existentes não eram capazes de captar a sutileza de seus tipos, ele substituiu suas placas de madeira por peças de metal, obtendo, assim, maior uniformidade na pressão aplicada. Nesse processo, ele também substituiu os grossos tímpanos que ajudavam a absorver essa pressão, mas que reduziam a profundidade dos tipos, valendo-se de um tímpano fino que envolvia o metal que era aquecido antes do uso. Dessa forma, esse perfeccionista radical e obcecado pela “qualidade máxima” obtinha um acabamento perfeitamente liso nas folhas impressas.


A combinação entre o desenho contrastado de sua família tipográfica com o processo de impressão inovador, o brilho de seus papeis e a intensidade de suas tintas fazia com que o resultado de suas impressões fosse extremamente refinado e singular.



Excelência a todo custo


Os livros impressos por Baskerville impressionavam pela qualidade, mas eram muito caros e acessíveis apenas a um público de elite. Para se ter uma ideia, para uma tiragem de 1.500 exemplares, Baskerville imprimia 2.000 cópias para, assim, poder selecionar 1.500 folhas de cor perfeitamente uniforme. Nesse processo, utilizava tipos móveis que fundia uma única vez.


Em suas edições, valia-se de poucos elementos decorativos, adotando entrelinhas abertas e margens generosas. Procurava, com isso, ressaltar a simplicidade e a sobriedade, tanto no desenho dos tipos, como no das edições.


Os livros de Baskerville valorizam a clareza: nada interfere no texto, sempre nítido. Essa tendência para a sobriedade e elegância influenciou profundamente a evolução do desenho editorial, tanto nas Ilhas Britânicas, como no Continente. Sua austera e majestosa simplicidade também foi importante fonte de inspiração para Didot e Bodoni, mestres do desing tipográfico sucessores de Baskerville.



O legado de Baskerville


Página de rosto da edição da Bucólicas, de Virgílio, impressa em 1757 por J. Baskerville.



Baskerville realizou sua primeira composição e impressão tipográfica em 1757: uma edição da Bucólicas, de Virgílio, em formato in quarto. Esse trabalho causou sensação na Europa e, no ano seguinte, o tipógrafo deu continuidade ao seu projeto de excelência gráfica com a publicação de Paraíso perdido, de John Milton.


No livro de Milton, o próprio Baskerville escreve no prefácio:


Tendo sido desde jovem um admirador da beleza das letras, tornei-me intensamente desejoso de contribuir para a perfeição delas. Concebi noções de como formá-las com maior precisão, e ousei produzir uma família de tipos conforme a minha concepção do que entendo ser suas autênticas proporções.

John Baskerville, prefácio de Paraíso perdido, de John Milton, 1758.


Entre 1757 e sua morte, em 1775, Baskerville imprimiu mais de cinquenta obras. Sua viúva, Sarah Eaves, manteve sua oficina ativa até 1777, mas depois a vendeu. Então, as punções, matrizes e prensas de Baskerville foram instaladas em Kehl, na Alemanha, onde foram usadas para a impressão da obra completa de Voltaire, editada pela Sociedade Literária e Tipográfica, de Beaumarchais. Beaumarchais depois mudou sua fundição para Paris, em 1789.


Em Paris, a Gazette Nationale foi impressa com os tipos de Baskerville, a partir de novembro de 1790, e, durante os primeiros anos da Revolução Francesa, essa fonte também foi utilizada em muitos outros impressos.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Livros

Pardoe, F.E. John Baskerville of Birmingham: Letter-Founder and Printer. London, 1975.


Reed, Talbot Baines; Johnson, A.F. A history of the old English letter foundries; with notes, historical and bibliographical, on the rise and fall of English typography. Dawson. Folkestone, 1974.


Rogers, Bruce. Report on the Typography of the Cambridge University Press. Cambridgeshire: University Printer. Cambridge, 1950. Elaborado em 1917 e impresso por ocasião do 80.º aniversário de Bruce Rogers, em 1950, por Brooke Crutchley.


Straus, Ralph; Dent, Robert K. John Baskerville, a memoir. Cambridge, 1907.


Updike, Daniel Berkeley. Printing Types: Their History, Forms and Use. The Belknap Press of the Harvard University Press. Cambridge, 1927 e 1962. Reimpressão: Dover Publications. New York, 1980. Obra de referência.


William Bennett, John Baskerville, the Birmingham printer, his press, relations and friends (City of Birmingham School of Printing, 1937).


Josiah Henry Benton, John Baskerville, Type-Founder and Printer, 1706-1775 (Privately Printed, 1914).


Stanley Morison, Four Centuries of Fine Printing (Ernest & Benn, 1924).


Ralph Straus & Robert K. Dent, John Baskerville: A Memoir (Chatto & Windus, 1907).


Websites

“Visiting Baskerville in Intro to Typography”. In: dmcwo's notebook, 10/6/2019. Disponível em: https://dmcwo.github.io/dmcwo/blog/visiting-baskerville/ (Acesso em: 15/6/2023).


“Baskerville”. In: The History, Style and Use of Type, 28/6/2014. Disponível em: https://morganlmurrayims224researchtopic.wordpress.com/2014/06/28/baskerville/

(Acesso em: 15/6/2023).


“Baskerville”. In: Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Baskerville (Acesso em: 15/6/2023).


Bishop, Mark J. “Baskerville typeface specimen — a UI case study”. In: UX Collective, 25/1/2020. Disponível em: https://uxdesign.cc/baskerville-typeface-specimen-a-ui-case-study-1eeff7663bd7 (Acesso em: 15/6/2023).


“John Baskerville”. In: Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/publishing (Acesso em: 15/6/2023).


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