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Brás Cubas e o Realismo brasileiro

Atualizado: 10 de Set de 2020

Memórias póstumas de Brás Cubas, obra prima de Machado de Assis, é o romance que marca o início do Realismo no Brasil.

Dedicado ao verme que primeiro roeu as frias carnes do autor, o livro rompe com os parâmetros literários do Romantismo vigentes na época, introduzindo o Realismo no país.


A obra é narrada em primeira pessoa pelo insólito personagem Brás Cubas, que se auto intitula um "defunto autor" (não confundir com "autor defunto", posto que Cubas não é um escritor que morreu, mas um defunto que resolve escrever suas memórias depois de finado).


Escrita com "a pena da galhofa e as tintas da melancolia", a obra se vale de fina ironia para retratar a decadente burguesia carioca do final do século XIX, compondo uma narrativa não linear, organizada em numerosos capítulos curtos que, por vezes, contém apenas uma frese – ou nenhuma –, surpreendendo os leitores da época, acostumados ao desenvolvimento de tramas focadas na ação, e não na reflexão, como é o caso destas memórias.


Em oposição ao Romantismo, Memórias póstumas segue em direção contrária, lançando um olhar crítico sobre a sociedade da época e buscando retratar a realidade sem idealismos.


Contexto histórico


A partir da revolução Industrial, no século XIX, o mundo assistia a grandes transformações, tornando-se mais urbano, com o respectivo declínio da população rural. O Rio de Janeiro de Machado de Assis passava por esse mesmo processo.


Além disso, enquanto ideias progressistas e o movimento republicano ganhavam força por aqui, nossa monarquia via-se desgastada pelos custos da Guerra do Paraguai, encerrada em 1870. Desde 1850, porém, nossa atrasada economia já se encontrava em decadência por causa da proibição do tráfico negreiro.


Nesse contexto, o transbordamento sentimental e o idealismo, característicos do Romantismo, já não encontravam ressonância no mundo pragmático e tecnológico que surgia. Não por acaso, o livro de Machado de Assis, publicado sete anos antes da abolição da escravidão no Brasil, em 1881, alinha-se ao Realismo, já então em voga na Europa desde a publicação de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, em 1856.


Porém, enquanto os realistas europeus preferem narrativas em terceira pessoa, oniscientes e imparciais, Machado de Assis opta pela primeira pessoa. Dessa forma, por um lado, ele traz o "realismo" para a própria narrativa, dando concretude à voz do narrador: não se trata de uma entidade abstrata, onisciente como um deus, quem nos conta uma história "falsamente" imparcial, mas o próprio sujeito que observa os fatos. Por outro lado, ao descrever a "verdade dos fatos" a partir do ponto de vista parcial de um narrador que não só participa dos acontecimentos, mas tem opiniões e inclinações próprias, ele acaba por colocar em xeque a própria objetividade desse narrador, pelo menos enquanto sujeito "imparcial". A postura "científica" dos europeus, portanto, foi substituída por uma postura "psicológica" nos romances de Machado de Assis, o que irá culminar no romance Dom Casmurro, de 1899, marco do nosso Realismo Psicológico.


Considerado escritor maior das letras brasileiras, Machado de Assis revolucionou a literatura nacional com Memórias póstumas de Brás Cubas. A partir dessa publicação, o romance brasileiro abriu-se para a modernidade.

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